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TELÊ, LÍDER

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LEAD

Por ocasião da morte de um dos maiores técnicos do futebol brasileiro, TELÊ SANTANA, escrevi artigo na Revista Profissional & Negócios em que, entre tantos predicados atribuídos a ele, o chamava simplesmente de LÍDER. Associava suas várias e reconhecidas competências àquelas que um verdadeiro Líder deveria possuir.

Resolvi republicar a matéria(com algumas atualizações) não só porque hoje se discute quem deveria ser “capitão”, líder da Seleção Brasileira dentro de campo, mas também porque o “conceito” de LÍDER nas organizações vem sendo banalizado ou reduzido a “características menores de um bom chefe”.

Creio que o mundo moderno e a empresa moderna exigem novas dimensões de Liderança, numa perspectiva “transformadora de ambientes”, revolucionária, que vai além do “mundo pequeno”,da “caixinha” minúscula do organograma em que nos fixamos.

O RECONHECIMENTO DOS LIDERADOS, DE JORNALISTAS E DE TORCEDORES

Raí chamou-o idealista. Júnior preferiu caracterizá-lo como educador. Zetti  considerou-o pai. Cafu atribuiu a ele toda sua formação como atleta e como homem.Nele as seguintes qualificações se destacavam: ético, mestre (muito além do usual “professor” com que os atletas chamam os técnicos), perfeccionista,justo,preocupado em preparar as pessoas para a vida, interessado em aproximar esporte e arte.

Ugo Giorgetti, em crônica no jornal “O Estado de São Paulo” falou sobre Telê com precisão: “…provavelmente ninguém conheceu esse homem fechado, discreto,meticuloso, sem nenhuma outra ambição que não fosse direcionada para seu time e sua profissão (…) não falava inglês, não vestia roupas elegantes, não morava em apartamentos suntuosos (…) Telê sabia de tudo imediatamente, quem tinha chegado tarde, quem tinha exagerado na bebida(…) sem ter informantes conhecidos, sem alimentar a delação; era difícil entender como sabia das coisas…”

Marcelinho Carioca contou que quando, pela primeira vez, recebeu no exterior um prêmio de uns dois mil e poucos dólares foi abordado no free shopping pelo seu técnico que reteve dois mil, deixando-lhe apenas os outros poucos para as compras. Contou também que Telê fizera o jogador Macedo devolver na concessionária o primeiro carro comprado.

Até suas imperfeições foram anotadas para que ficasse claro que não se falava de um santo. Telê era teimoso, ranzinza, pão-duro, conservador,fechado e introvertido.

Tinha total foco na profissão.Tinha um extraordinário prazer pelo que fazia.Morou no Centro de Treinamento do São Paulo. Era detalhista e zeloso com coisas que vão além das funções de um mero treinador.Levantava cedo, checava o gramado para evitar ervas daninhas e pragas causadoras de irregularidades e buracos.Vistoriava os aposentos  e a alimentação dos atletas. Ficava horas e horas com os jogadores após os treinos. desenvolvendo neles os fundamentos : chute a gol, defesas, cruzamentos, cabeceios. Valorizava os “treinamentos coletivos”( “que é o que o jogador gosta”, como dizia ele), tornando-os verdadeiras simulações para os jogos.

Nos estádios,até hoje, seu nome é lembrado. Faixas com seu nome sempre surgem no meio das torcidas.

QUE TREINADOR É ESSE?

Perdeu uma Copa e teve seu nome maciçamente referendado pelo Brasil para ser novamente o técnico da seleção?Que treinador é esse  que, mesmo perdendo a outra Copa, continua aclamado como o melhor técnico do Brasil? Mesmo considerado disciplinador e conservador,é respeitado e considerado Mestre por atletas mais questionadores da geração de Sócrates? Que treinador é esse que pairou acima das paixões clubistas?

Para responder a essas perguntas, só mesmo recorrendo a conceitos avançados de LIDERANÇA. Telê reuniu traços significativos de um Líder moderno.

UM LÍDER NA SUA ACEPÇÃO MAIS COMPLETA :

1-Visa a criação/transformação de cultura e valores

O Líder planta uma nova “história” em substituição a velhas práticas ou velhos paradigmas. É protagonista do processo de transformação organizacional. Não se limita a só tratar de “questões transacionais ” do dia a dia.

O time de Telê tinha de jogar o bom jogo. A vitória é a meta ,mas não a qualquer preço.O jogador tem de ser uma pessoa bem encaminhada na vida.O esporte é um meio para isso.

2-Foca o mercado, visando também transformá-lo; leva em conta em seus atos todos os stakeholders

O Líder deseja melhorar o mercado em que sua empresa atua. Mercado saudável é garantia de sobrevivência das empresas e satisfação das “partes interessadas”.

Telê queria times jogando bonito, campeonatos bem disputados, juízes apitando bem e coibindo a violência, confederações idôneas. Assim teria jogadores mais valorizados, clubes auto-sustentados e rentáveis e torcedores lotando os estádios.

3-É essencialmente educador

O Líder, acima de todas as competências, é educador.Prepara as pessoas no trabalho para vencerem na vida. Pratica coaching.Dá exemplo. Forma novos líderes.

Telê foi mais que coach,técnico de futebol. Foi coach no sentido moderno, adotado hoje pelas empresas. Orientava seus atletas, suprindo deficiências de formação familiar e escolar; dava conselhos e exemplos. Formou sucessores entre vários de seus comandados: Muricy,Zetti, Zico, Serginho,Júnior,Renato,Cerezzo e outros.

4-Tem entusiasmo e prazer por aquilo que faz; é idealista e visionário

É impossível liderar quem não sente prazer pelo que faz. Não dá para imaginar líderes desanimados, sem energia, sem entusiasmo. O Líder idealiza a perfeição e a busca obstinadamente.

Telê era exatamente assim.

Para mim faltam na definição do verdadeiro LÍDER dois atributos que o diferenciam definitivamente dos chefes e gerentes . A ÉTICA , que sustenta as ações do Líder, dando-lhe credibilidade para conquistar verdadeiros e sinceros seguidores, e a ESTÉTICA que aproxima suas ações de ARTE PURA, expressão máxima da perfeição.

Telê,ético, era amante do “Futebol Arte”.

 

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Milton Pereira

Há mais de 30 anos como executivo de grandes empresas, hoje atua como Consultor em Liderança, Comunicação e Educação Corporativa.

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