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SONETOS SELECIONADOS (3)

AMOR, FELICIDADE

(Guilherme de Almeida- 1890/1969)
Infeliz de quem passa pelo mundo
procurando no amor felicidade:
a mais linda ilusão dura um segundo,
e dura a vida inteira uma saudade.
                             *
Taça repleta, o amor, no mais profundo
íntimo, esconde a joia da verdade:
só depois de vazia mostra o fundo,
só depois de embriagar a mocidade…
                             *
Ah! quanto namorado descontente,
escutando a palavra confidente
que o coração murmura e a voz diz,
                             *
percebe que, afinal, por seu pecado,
tanto lhe falta para ser amado,
quanto lhe basta para ser feliz!

MAL SECRETO

(Raimundo Correia- 1859/1911)

Se a cólera que espuma, a dor que mora
N’alma, e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;

Se se pudesse, o espírito que chora,
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!

Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo
Como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja aventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!

CÍRCULO VICIOSO

(Machado de Assis- 1839/1908)

Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume:
“Quem me dera que eu fosse aquela loira estrela
Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!”
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:

“Pudesse eu copiar-te o transparente lume,
Que, da grega coluna à gótica janela,
Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela!”
Mas a lua, fitando o sol com azedume:

“Mísera! Tivesse eu aquela enorme, aquela
Claridade imortal, que toda a luz resume!”
Mas o sol, inclinando a rútila capela:

Pesa-me esta brilhante auréola de nume…
Enfara-me esta luz e desmedida umbela…
Por que não nasci eu um simples vaga-lume?”…



 

 

 

Milton Pereira

Há mais de 30 anos como executivo de grandes empresas, hoje atua como Consultor em Liderança, Comunicação e Educação Corporativa.

2 comentários

  1. Milton,

    Estudando para um concurso, encontrei este fragmento de uma poesia de Castro Alves (O Livro e a América) que quero compartilhar com você, que belo e como nos traz a lição de tão longíquo tempo da necessidade da leitura para formação do pensamento.

    Oh! Bendito o que semeia
    Livros à mão cheia
    E manda o povo pensar!
    O livro, caindo n’alma
    É germe – que faz a palma,
    É chuva – que faz o mar!

    Castro Alves ALVES, C., Espumas Flutuantes, 1870.

  2. Querida Marcia: esses versos são lindos e muito úteis nos tempos de hoje pelo que ensejam. Só o aprendizado contínuo – e a leitura é essencial – abre as “cabeças” e tem efeito efetivamente libertador. Quando selecionar poemas ( e não só Sonetos )para meu blog, óbvio que Castro Alves terá destaque especial . Quem não conhece e admira: “ Auriverde pendão da minha Terra que a brisa do Brasil beija e balança! ….”
    Obrigado pelo comentário e lembrança do poema de Castro Alves!

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