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SER HUMANO ENJAULADO

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Lá ,no início dos anos Depois de Cristo,na Roma antiga, cristãos eram jogados na arena para enfrentarem até a morte ferozes leões para alegria do imperador , seus asseclas e de sádicas multidões pagãs, dispostos nas arquibancadas do Coliseu.

Com o tempo “evoluímos” e passamos só a aprisionar animais:em gaiolas, jaulas e zoos para visitação pública. Vieram as touradas, vaquejadas ,rodeios e outros “festivais” onde se busca firmar a soberania dos homens sobre os animais.Aliás ,soberania desnecessária de ser demonstrada ,pois, portando armas, o valente “homo sapiens” já desenvolvera suas técnicas no excitante esporte da caça, hunting, há muito apreciado pela nobreza e por aficionados em diversas partes do planeta.

O Circo trouxe a tradição pela qual o homem consegue domar os bichinhos, dando-lhes um toque de “humanização”.O público aplaude freneticamente o elefante que se ajoelha humildemente para agradecer, os cachorrinhos que executam coreografia de balé, os gigantes ursos que se abraçam enfileirados, os ferozes leões ou tigres que aceitam transpor o aro ígneo, mesmo que olhando assustados para o chicote nas mãos do domador.

Mas nem sempre a “humanização” dos animais basta ao divertimento do homem. Para saciar-lhe a sanha de vê-los feras, ele cria espetáculos onde expõe os bichinhos treinados a seus instintos mais selvagens. As rinhas colocam galos de briga ao estresse máximo ,cada um querendo matar o ‘irmão”,depois de terem suas garras afiadas por treinadores e serem provocados aos berros por apostadores,que descobriram outro meio excitante de ganhar ou perder dinheiro.

Hoje,felizmente, já se questionam animais presos em zoológicos.Em boa hora começam a ser desmontados “circos” cuja grande atração eram animais.Os circos modernos os estão deixando em paz, fazendo espetáculos em que o homem é o único artista. As festas tradicionais com animais vêm sofrendo uma pressão danada para serem proibidas por lei.Aqui e acolá algumas ainda estão se salvando sob argumento de que a “tradição tudo justifica”. Prisão,comércio e caça de animais selvagens são crimes em muitos países. E a preservação de várias espécies  tem garantido a elas “paraísos de liberdade”.

Mas o homem parece recorrer à herança de sua natureza beligerante para se divertir.Espetáculos de luta entre seres humanos sempre estiveram na moda.O curioso nos dias de hoje é que ,enquanto os animais são protegidos para viverem em liberdade como animais, a “animalização” do homem-em contraposição à ” humanização” dos animais-, pode ser constatada em determinados espetáculos públicos.As lutas sangrentas entre dois seres humanos lembram as rinhas de galo.O octógono, a preparação dos lutadores,os gritos histéricos da plateia ,a violência com que cada contendor ataca o “irmão”… tudo lembra os rituais das rinhas.

Alguns realities são verdadeiros “zoológicos humanos”,  expostos à visitação pública.Milhares de pessoas ficam ligadas na tevê com olhos nas “jaulas”. As pessoas ,enjauladas,são expostas e satisfazem à “sanha sádica” dos observadores quando seus “instintos primitivos”, estimulados, provocam desentendimentos ou entendimentos por baixo dos edredons.

Na falta dos bichos, nós mesmos vamos nos enjaulando para que o espetáculo continue. Muito curioso o bicho homem!

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Milton Pereira

Há mais de 30 anos como executivo de grandes empresas, hoje atua como Consultor em Liderança, Comunicação e Educação Corporativa.

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