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RESENHA DE UM CANDIDATO A EMPREGO

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Estou numa enrascada. Preciso trabalhar, voltar ao mercado de trabalho depois de algumas tentativas infrutíferas como microempreendedor.

Tento primeiro me inscrever em sites de recrutamento, onde as empresas fazem “generosas” ofertas e instigam candidatos a utilizar esse meio,até para elas demonstrarem o quanto são “queridas” e mostrarem que vão ser objetivas nas escolhas. E aí lá vou eu fazer parte da concorrida lista. Fico sabendo que a área de RH adota ferramentas modernas, na base de algoritmos, para reduzir os milhares de inscritos a meia dúzia de selecionados . Vasculham, baseados em informações curriculares, traços de personalidade e até hábitos dos candidatos (do que gostam, o que compram, o que leem, suas preferências nos esportes etc etc) .A inteligência artificial parece entrar para valer na vida das empresas.

E aí, o tempo passa…ninguém me chama.Ninguém me liga…vou ao site e nada. A tal inteligência parece ser muito artificial mesmo, porque respeito e educação não fazem parte do seu repertório.

Continuo firme na busca por um trabalho. Um amigo consegue que eu encaminhe meu currículo direto para a pessoa que está recrutando e que ele conhece . Faço-o pelo email indicado. E lá se vai meu currículo real (procuro ser muito verdadeiro ao descrever meu histórico profissional) virtualmente encaminhado.Nesse caso, só sei, pelo que meu amigo disse, que a vaga existente se encaixa no meu perfil e formação, além de atender minhas expectativas sobre a função. A remuneração , a gente vê depois.

Já faz mais de 15 dias que mandei o email e até agora nenhuma resposta. Pode ser que o excesso de trabalho ou os muitos currículos para análise tenham dificultado ao amigo do meu amigo me chamar para uma entrevista. Acho que pelo menos uma entrevista eu merecia.Afinal, leio em vários artigos de revistas especializadas que o que conta mesmo hoje não é mais o currículo e sim “olho no olho”. Tenho até pingado colírio para, quando me chamarem, os olhos brilharem… Mais 15 dias, 1 mês, e nada. Falo com meu amigo ,e ele diz que vai fazer um FUP (follow up, coisa chique) com o “dono da vaga”. Espero. Finalmente alguém me liga. Da empresa? Não. É o meu amigo.A vaga foi preenchida por uma pessoa mais experiente.”A experiência contou muito”. Fico pensando: como demonstrar  minha experiência se não me experimentam? Será que o email com meu currículo saiu mesmo da caixa de correspondência do amigo do meu amigo? Mui amigo!

Como preciso muito do emprego, vou ter que apelar para um último recurso com grande chance de dar certo. Meu tio foi Vice-Presidente de RH de uma grande empresa.Recém aposentado, deve ter deixado muitos amigos “poderosos” em cargos executivos. Não queria pedir-lhe ajuda,mas…

Contei-lhe meu drama ,ainda sem insinuar nada.Ele ,muito orgulhoso do seu papel como VP de RH, falou-me de um punhado de projetos inovadores do seu tempo e suas concepções sobre “gestão de pessoas” que fizeram sua empresa estar sempre na lista das melhores empresas para se trabalhar. E em primeiro lugar por 3 anos consecutivos.Em um certo momento me deu a deixa para eu fazer-lhe o pedido.Falou de sua concepção sobre recrutamento e seleção e de um programa implantado- Traga seu Amigo para Trabalhar Conosco– pelo qual funcionários da empresa podiam indicar parentes e amigos para disputarem vagas existentes. Segundo ele, se a disputa por uma vaga resultasse num “empate” e entre os “finalistas” houvesse uma pessoa indicada por funcionário,esta seria a escolhida. Nesse caso o “QI” (“Quem Indica”) valeria mais.Afinal, é mais certo trazer um conhecido que um desconhecido. Porém,deixou claro:” só em caso de empate,pois ,antes de tudo,as competências para o cargo é que têm que prevalecer no processo seletivo”.

Aí, com certa timidez falei: “O senhor não poderia indicar meu nome para algum processo seletivo?” Ele,atencioso, respondeu: “Não”.Antes de eu agradecer-lhe pela “generosidade e franqueza”,ele explicou: “Tenho um compromisso de não apresentar ninguém para trabalhar na minha empresa, nem mesmo depois de aposentado.É um princípio que adotei em minha carreira ,desde que assumi o mais elevado posto em gestão de pessoas. Você deve entender isso. Meu pedido teria um peso desproporcional e poderia causar injustiça no processo seletivo.”

Em seguida, ele abriu-me uma esperança: ” Vou enviar seu currículo para dois VP’s de RH ,são muito meus amigos. Eles são da mesma linha que eu e vão,sem dúvida, colocá-lo no páreo para uma vaga adequada a seu perfil e competências. Me mande o currículo ,deixe o resto por minha conta e fique atento a um telefonema deles.”

Fui para casa contente.Agora vai! Torcendo por um “empate”,caprichei no currículo ,chamei-o de Bio Profissional (mais atual),com uns retoques necessários:fotografia,revisão do modelo,melhor qualidade na tipologia de letras,   experiências e fluência no Inglês em negrito etc etc. E lá se foi meu email ao meu tio,anexando o currículo mais caprichado que já fiz. Agora é esperar que o prestígio dele no meio de RH ainda esteja prevalecendo,mesmo após sua recente aposentadoria.

Uma semana se passou e nada. Ainda é pouco tempo, tento me convencer. Esse pessoal é muito ocupado.No décimo dia de espera,meu celular chama.Olho e não reconheço o número.Atendo afoito.Era meu tio. Perguntou-me se alguém tinha me ligado. Perguntei se era de alguma empresa.Ele disse:”Claro. Meu amigo Gilson me disse que uma pessoa de RH lhe ligaria.” E acrescentou:” O outro meu grande amigo Antônio  Luiz disse que no momento todas as vagas estão suspensas,mas que no ano que vem vai encaminhar seu currículo à área responsável”. E ,antes de desligar, emendou: “Fique tranquilo, um ou outro vai resolver seu problema: são dois amigaços cujas empresas sempre estiveram ranqueadas entre as melhores para se trabalhar”.Pensei comigo: mui amigos!

A pessoa do RH que ia me ligar era uma tal de Maria das Graças (não posso esquecer nome tão sugestivo!). E o surpreendente: ela ligou! Me disse que estava com o currículo em suas mãos e que eu ficasse tranquilo que logo que abrisse uma vaga eu seria chamado.Graças a Deus, RH é super eficiente!

E assim se passaram os dias,os meses…eu vou ter que me virar. Pensei no trabalho intermitente, pensei no Uber… Faço parte hoje do “bloco dos desalentados” (aliás ,uma boa sugestão para o próximo Carnaval). Sonhei até que me empregaram ,agora por conta de um novo “algor-íntimo”, algo mais friendly!

 

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Milton Pereira

Há mais de 30 anos como executivo de grandes empresas, hoje atua como Consultor em Liderança, Comunicação e Educação Corporativa.

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