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PUNIDOS PELAS RECOMPENSAS OU MOVIDOS PELA CULTURA DE CENOURAS

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Ante tantas “mudanças” apregoadas por grandes empresas, a título de provocação,extraí do meu baú de livros e artigos citações de notáveis estudiosos em gestão, não só para checar a sua validade nos dias de hoje mas também para avaliar se houve grandes “transformações” na forma como as pessoas são tratadas .

(Deixo de constar biografias dos citados para não estender muito o conteúdo desse post.Acredito que alguns são por demais conhecidos e reconhecidos.O “curriculum” de cada um pode ser encontrado na Internet)

“Para que a empresa sirva a um propósito ,além de sua carteira de negócios,seu investimento,precisa incluir o empoderamento de funcionários,o envolvimento emocional, a liderança fundada em valores e contribuições correlatas da sociedade”  (Rosabeth Moss Kanter)

“Institua um vigoroso programa de educação e auto-aperfeiçoamento.Não só treinamento para o trabalho ,mas educação para a vida,apostando no aporte do conhecimento que vai fazer brotar do fundo da alma as ações que legitimarão as mudanças.Acabará ocorrendo de dentro para fora ,fruto da compreensão e engajamento de cada um”. (William Edwards Deming)

“A configuração mais nítida do comportamento motivacional começa ,antes de mais nada,quando se consegue separar dois tipos de ações:aquelas empreendidas pelo indivíduo e que foram condicionadas por fatores externos das que espontaneamente são emitidas pela própria pessoa.As primeiras caracterizam o movimento ,e as segundas são reconhecidamente denominadas ações ou atos motivacionais” (Cecília Bergamini)

” As recompensas não produzem as mudanças almejadas, a questão refere-se aqui a algo mais que vai acontecer : quanto mais  recompensas são dadas ,mais parecem necessárias”. “Faça isso e obterá aquilo” faz com que as pessoas se concentrem ‘naquilo’ e não ‘nisso’. “(Alfie Kohn)

” A ideia de bônus me lembra o adestramento de um cão ,que ganha biscoitos quando pula um obstáculo” (Henry Mintzberg)

“Veremos cada vez mais organizações operando como o conjunto de jazz,no qual a liderança muda de acordo com as circunstâncias e é independente do ‘posto’ de cada membro. Na verdade ,a palavra ‘posto’ deverá desaparecer totalmente do vocabulário do trabalho do conhecimento e do seu trabalhador.Ela será substituída por ‘atribuição’. Essa mudança irá provocar tremendos problemas de motivação, de premiação e de reconhecimento” (Peter Drucker)

Sabe-se que:

  • Família e escola adotam uma educação predominantemente behaviorista o que reflete nas empresas
  • As estruturas ainda são muito hierarquizadas. Os níveis hierárquicos não deixam de ser formas de estimular no funcionário seu crescimento nas empresas. “Você vai ser promovido a chefe ” ,o que traz inegável satisfação ao funcionário , é um meio tangível de a organização reconhecer o trabalho e reter o bom funcionário. Há organizações ainda que criam várias faixas de chefia com esse objetivo (Ex.  Diretor Técnico, Diretor Executivo,Vice-presidente, Vice -presidente Estatutário e assim por diante,diferenciando-os não só pelo status mas também pelos bônus)
  • Hoje a retenção de talentos ou a disputa por eles no mercado pegam muitas empresas despreparadas justamente porque ainda adotam práticas válidas e ou aceitas para as gerações de babyboomers ou X. As gerações Y e Z têm expectativas diferentes, são mais questionadores e esperam trabalhos desafiadores ,que lhes proporcionem  satisfação e significado.
  • A geração Z e millennials têm espírito empreendedor; esses jovens idealizam ter seu próprio negócio,se possível, ou , tendo que ingressar numa empresa, que seja onde possam ser mais criativos e contributivos,sem os rigores das “chefias tutoras”,do exigente dress code e  horários rígidos.

O que as pesquisas e os especialistas dizem é que:

  • Mais de 30% dos trabalhadores brasileiros sofrem com a Síndrome de Burnout,estado de tensão emocional e estresse provocados por condições de trabalho desgastantes (Revista Exame- Fonte Isma-BR)
  • Ambientes mais criativos ,abertos ao erro,com menos centralização de poder e mais flexibilidade são as habilidades desejadas pelas empresas e profissionais” (Cia de Talentos – Linkedin)
  • O índice de evasão de trainees após efetivados é alto, podendo superar em muitos casos 40% dos admitidos
  • Algumas causas da rotatividade nas empresas: desmotivação , atividades repetitivas,equipes sem engajamento,metas intangíveis, gerência autoritária,falta de reconhecimento, falta de um propósito e espaço para crescimento profissional
  • As novas gerações surgem com outras expectativas em relação ao trabalho.Muitos querem ser “donos do seu nariz” e não querem submeter-se aos regimes adotados pelas organizações:querem ser empreendedores, trabalhar por conta própria, ter o controle de seus horários (“uberização”). Outros ingressam nas empresas buscando significado e propósito no trabalho, esperando ambientes modernos,mais abertos à criatividade, sem o peso sufocante da hierarquia , sem chefes controladores e sem a rigidez de normas e códigos disciplinares
  • Na busca por talentos  as empresas refinam seus discursos, modernizam seus layouts, flexibilizam suas práticas de gestão e apregoam uma “nova cultura” para ir ao encontro das expectativas da rapaziada.

Juntando as palavras de grandes especialistas com o que vem de constatações sobre o mundo real nas empresas e o que apontam as pesquisas, ficam as questões:

  • ou há muita teoria dissociada da prática;
  • ou  uma grande parte das empresas não consegue atingir (ir a fundo)na essência as transformações necessárias que o novo mundo (VUCA:Volatility, Uncertainty, Complexity, Ambiguity) exige;
  • ou também: as mudanças estão rápidas demais, e os impactos sobre o “ser humano” não estão sendo bem assimilados pelas organizações,cujos parâmetros de produtividade , motivação e reconhecimento estão estacionados em épocas passadas.
  • Enquanto isso, a “cultura de cenouras” continua florescendo!
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Milton Pereira

Há mais de 30 anos como executivo de grandes empresas, hoje atua como Consultor em Liderança, Comunicação e Educação Corporativa.

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