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PODER, PRAZER E HUMOR

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Uma vez ouvi do saudoso psiquiatra Dr. José Ângelo Gaiarsa: onde há poder não há prazer. Essa afirmação me acompanha sempre, tumultuando minhas reflexões sobre o tema. Por vezes acho-a irretocável. Levada às últimas consequências, depurando bem os conceitos e refletindo sobre ambientes em que há exacerbação no exercício do poder, não vejo como contestar o Dr. Gaiarsa.

Olhando por outro prisma, o poder é um mecanismo estabelecido em qualquer agrupamento humano. Uma família -pai, mãe e dois filhos-, em seus relacionamentos diários, tem o poder norteando suas decisões. Ou é exercido pelo pai ,por exemplo,utilizando a força do seu “poder econômico” (“como eu vou pagar a conta,eu escolho o restaurante”); ou pela filha que se vale de conhecimento como fonte de poder (” eu pesquisei os restaurantes e encontrei um com bom custo- benefício que agradaria a todos”). Numa roda de amigos o poder circunstancialmente pode ser exercido por um deles que detenha mais conhecimento sobre o objeto da decisão. Pela força também se exerce o poder:”manda quem pode,obedece quem tem juízo”.

A afirmação absoluta do Dr Gaiarsa me levaria a concluir que “não haverá prazer nos relacionamentos humanos pelo menos toda vez que houver necessidade de decidir”. In extremis: os relacionamentos humanos não seriam prazerosos? Acho que fui longe demais. Exagerei na interpretação do que afirmara o Doutor. Talvez ele tenha se referido somente aos ambientes de exacerbado exercício do poder.

Leio nos jornais referências ao “Discurso à Cúria” com que o Papa Francisco enumera “quinze doenças capazes de corroer e viciar a alma dos cardeais” (“Santo CEO quer feriados e risos”- Mario Sergio Conti-Folha SP-26/12/2014; “Poder” -Francisco Daudt -Folha SP- 07/01/2015). Nele,entre outras coisas, o Papa puxa literalmente as orelhas dos cardeais da Cúria exortando-os a serem menos carrancudos, a trabalharem menos e deixarem de preocupar-se com as aparências e a importância dos “cargos” para focarem nos objetivos essenciais da Igreja.

Percebo ,então, o efeito da tal exacerbação no exercício do poder: gera sisudez no cargo,  falta de humor e,por consequência,  falta de prazer. Mas aí me vem a pergunta: será que a importância que se atribui ao cargo, o poder que emana dessa pompa toda, não dá prazer a quem o exerce? Sentir-se poderoso é prazeroso. Nesse ponto amplio a reflexão: o ambiente pode ser de total “desprazer”,mas o “todo poderoso” isoladamente deve ter orgasmos exercendo o poder. O Dr Gaiarsa volta a ter razão. E o Papa também. O  poder de per si pode desviar quem o exerce das finalidades essenciais do cargo.

Acrescento, concluindo, que humor nas organizações é um pré-requisito para conferir ao ambiente qualidade de vida e prazer em trabalhar e ao trabalho significado.

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Milton Pereira

Há mais de 30 anos como executivo de grandes empresas, hoje atua como Consultor em Liderança, Comunicação e Educação Corporativa.

2 comentários

  1. Mais um texto repleto de boas reflexoes. Obrigado novamente por nos proporcionar mais essa leitura querido amigo Milton. Abs!!!

  2. Parabéns, Milton. Tenho acompanhado-o, fico impressionada com o quanto escreve bem e com o conteúdo. São textos que me fazem refletir sobre o mundo corporativo e a repensar meu lugar enquanto colaboradora, não só da empresa, mas do mundo. Forte abraço!

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