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OS CEGOS

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pássaro da noite(Esse conto é de um ex-bancário cuja história relato em  “CAUSO CORPORATIVO” postado em 15/10/2014 nesse blog. Sua publicação na íntegra atende a algumas solicitações de leitores e a promessa que fiz de um dia divulgá-lo. José Niuton, o autor que não cheguei a conhecer,participou de um concurso literário que organizei para a Fundação Itauclube, nos idos anos 70 . Vale a pena ,antes de ler o conto, conhecer a história do ex-caixa do Banco Itaú para valorizar ainda mais um talento “desconhecido”)

O sol tropeçou um pouco nos montes e cambaleou antes de dormir.Rosnou a velha mãe antes de apanhar a água com as mãos e levá-la à boca seca.

Tudo era velho e seco,seco e velho e mudo.E o velho seco chão de terra parecia a rapa enferrujada e preta das panelas.A vida,a velha e preta vida,secara.Secara na alma, nas bocas, nos olhos…como secara nos olhos!

A noite surgia assim naquele dia.Pretejou ainda mais a vida…mas uma canela-seca,velha e preta ainda cantou!?(canto mais seco!).É o curió,e a coruja,os pássaros!Os pequenos pássaros da noite ainda faziam a noite ser noite.

-Está diferente-pensou a velha mãe.

– Eles só pulavam de galho em galho  e hoje cantam… Está diferente!

Dentro de casa, a velha casa ensebada e preta de  fumaça,os dois velhos filhos também notaram o canto (canto mais mórbido!) da passarada noturna.Havia mais noite dentro deles que a própria escuridão lá fora.Havia mais secura e ferrugem dentro deles que a própria vida lá fora.A própria velha sabedoria murchara como as próprias bocas se fecharam. Havia harmonia de uma velha e tensa canção entre eles e a vida.Cantavam mudamente num mesmo compasso modorrento,mas gritante! Os gritos calados dentro da própria vida,deles e do lá-fora. Por isso aqueles cantos os envolviam como chuva há muito esperada e vinda. Bem vindas as canelas-secas,os curiós,os bem-te-vis e toda passarada!Bem vinda a coragem de quem grita por aqueles cujos lábios secaram. Bem vindo o allegretto estúpido! Estúpido, mas bem vindo! Porque só eles trouxeram as vozes que se haviam perdido dentro deles. Dos dois velhos sábios secos e cegos.

A velha esboçou um meio sorriso nos lábios que há muito não sorriam.Os olhos se iluminaram numa velha chama guardada e umedeceram-se com uma velha lágrima trancada. Pigarreou forte,tentando contê-la, mas a estúpida chorosa já corria por entre as trincheiras da pele. Levou a mão aos olhos para enxugar a que vinha descendo,mas já não havia como.E elas desceram,velhas como pus de uma grande e velha ferida adormecida.Banhavam infantilmente aquele velho rosto rasgado de velhas rugas. Pobre mãe que há muito não chorava!

Parada.Estatueta de matrona derramando a vida pela ferida rasgada. Como salgava a velha boca ressequida! Ah! Com que alívio experimentava o sal depositado nos olhos e na alma!Como era bom lamber aquele resto de vida que jorrava abundantemente pelos olhos que tantos anos o viram desfilar!

Pelos olhos úmidos ainda divisava uma rasa luz entre os montes.Vinha fogosa a estranha luz,como esplêndida estrela da manhã.Vinha poderosa libertar a noite.Corria pelo espaço como um grande cavalo disforme,incendiando as rugas da velha noite. E a velha mãe parada ainda recolhia n’alma as últimas gotas daquela água que lhe saciara a sede da velhice.Teve medo,coitada  da velha! Teve um medo absurdo,um velho e louco medo daquele corcel trepidante de fogo que lhe vinha ao encontro. Não conseguia mover qualquer velho músculo, e a vontade de gritar parecia arrebentar-lhe a garganta… e não gritava. Pobre velha mãe que saboreava o sal da velha vida!

Apalpavam o espaço da casa quatro mãos em busca do lá-fora.Quatro mãos cegas e inúteis.Estúpidas mãos em busca da mãe.E a mãe parada,sentindo o cavalo-de-fogo cada vez mais próximo.

Quatro mãos em busca de alívio, de coragem.Pobres velhas mãos perdidas nos gestos cansados.A porta. Quatro mãos. Lá fora a mãe.

– Mãe!

Estatueta de marfim!

-Mãe!!

Visão apocalíptica.Visão dantesca.

-Mãe!!!

Cavalo de fogo sem patas.Rasgando o espaço,cortando o tempo.Cada vez mais perto.Velha mãe cada vez mais rígida.

-Mãe! Mãe! Que tens?

Só o grito.Um novo e dolorido grito.Mãe do grito.Espasmo da velha e preta vida.Rançosa vida…

Tão bem vindos os pardais! Tão bem vindas as canelas-secas e os curiós e a noite. A pretejada noite. O choro, o sal do choro.Tão bem vinda a vida!… Agora o caos.

Curvam-se quatro mãos à procura de um corpo.Assinalam na terra preta e ressequida sulcos do desespero.Tocam o corpo. Corpo quente do fogo,mas feio de vida. Mais que o fogo o gelo queima.

– Mãe!

O caos.

-Maaaaaaaaaaaãe!!!

Eis agora quatro pés em busca da estrada.Quatro pés tateando caminhos.Abandonaram no terreiro do lá-fora o corpo estendido da velha mãe morta.Mãe seca no varal,respingando ainda pequenas lágrimas.

Estradeiros cegos,pobres cegos.Estradeiros da vida, bem aventurados os vivos.Subiam encostas,desciam montes os caminheiros da vida.Terra seca,velha terra.

Duas mortes perambulando no mundo.Duas noites a esbarrar nos dias claros.

-Viste aquela bola colorida atravessar o espaço?

-Como poderia esquecer? Eu esperei noites e noites, até que pudesse distinguir a forma.Rugiu como se o vento a soprasse e depositou em meus olhos a esperança.

Velhos cegos em busca da visão de dentro.Caminho adentro.

-O Fogo! Ele me trouxe o sabor dos raios da aurora que nunca vi. Trouxe o perfume da relva e o frescor dos rios.Pudeste tê-lo nos olhos e o perdeste…

Falava dos caminhos, parcos caminhos do mundo, mas inebriantes caminhos da alma.Ver e descobrir nas andanças do pensamento caminhos que nos levam às clareiras intermináveis da luz. E havia sombras. Sombras mudas e cegas nos olhos do velho irmão.

-Olha a minha estrada! Ela é…

-Espera!…Um momento.Tua estrada fica ao norte das palmeiras do litoral?

-Sim.Também a leste dos rochedos…

-E na estrada um nicho com a imagem de Nossa Senhora da Conceição?

-Sim,toda enfeitada de camélias…

-E ,em cada curva, uma “frondosa” fonte ,correndo águas cristalinas das mãos de um anjo?

-Sim! Sim! São Miguel Arcanjo!

-Existe uma cascata?

-Bem no meio das hortênsias…

-E uma ponte atravessando o lago?

-Todo coberto de plantas verdes…

– … É tua estrada?

– E para onde vou em todos os meus passos.É onde sento a escutar as vozes que me vêm d’alma.

-Foi também a minha estrada.

Velhos irmãos falando o que há muito não conseguiam falar.Velhos cegos olhando através do espelho da vida.Velhas crianças sonhando.

Sentaram-se. A noite vinha rápido.Sem saberem, tinham voltado à velha casa.Casa da mãe seca.Mãe pendurada no varal.Mãe de ossos.Entre eles a a mãe, a noite. Um silêncio imenso. Mudo.

De repente as canelas-secas, os pardais, as corujas. Re-canto dos velhos pássaros adormecidos. Re-canto lento no relento. A velha passarada cantando a vida (?)

Adormecia um cego, enquanto o outro levantava o rosto na noite, procurando os ruídos antigos.Tão íntimos.Nem uma leve brisa.Apenas aquele cantar sem igual.Estranho canto que adormeceu a mãe.

Levantou-se. Ergueu os braços como que buscando um daqueles pássaros que abatiam o velho silêncio. Tocou no varal.Escorreu as mãos para o canto e tocou nos ossos frios da mãe. Ossos calados. Uma lágrima lhe irritou os olhos e caiu como chumbo derretido numa grande cratera de fogo. Águas plúmbeas a lhe escorrer na face. A mão tocando restos de mãe.

O cavalo -de- fogo ! Dentro da noite dele e do lá-fora, o imenso corcel andante.Viajor peregrino incendiando a escuridão. O cego via.Via como nunca vira antes. Qual asas de um grande pássaro,corria. O grande corcel alado.Trepidante. Angustiante. E o velho, hirto. Preso na imensa corrida que lhe vinha ao encontro.

Montava esse grande corredor de fogo, a mãe. Os ossos e a amazona incendiada. Velha mãe de cabelos de fogo. Mãos de fogo.Relho de fogo.

Nos olhos o sal da vida. O grito. O imenso grito ganhando eco na planície. O silêncio. O imenso caos da morte. Sem pássaros,sem vento. A agonia muda despertando o velho cego irmão.

-Irmão!

Pássaro abatido!

-Irmão!

Viajor cansado.

-Irmão! Irmão!

Tropeçou no corpo.Abaixou-se e tocou-lhe com as mãos tremidas. Velhas mãos ressurgindo na vida.

-Ahhhhhhhh!…

Dor ! Imensa dor cavalgando agora na escuridão. Cortante, como navalha rasgando a carne. Velhas mãos secas procurando abrigo. Nada . Só jazigo.

Velho e seco irmão peneirando a solidão. Mais velho e seco ainda, correndo estradas intermináveis.

Velhas fontes. Velhas cascatas. Velhas imagens. Velha vida vivida. Ranço de lembrança.Museu de ossos.

Deixou no lá-fora dois corpos no varal, respingando as sobras de umidade da vida. Peles esticando sob o sol, o velho e seco sol,salgando a carne.

Viajor patético.Estradeiro maldito retornando à velha casa. Cansado. Passos re-buscando lugares. Olhos mortos de novas estradas.Derradeiras gotas que se evaporam das fontes e dos lagos vistos.

O cego e a noite.

O cego e o varal. As mãos. Os pássaros. As lágrimas salgando a velhice da boca.

Lá longe o cavalo-de fogo.

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Milton Pereira

Há mais de 30 anos como executivo de grandes empresas, hoje atua como Consultor em Liderança, Comunicação e Educação Corporativa.

Um comentário

  1. Que maravilha de texto, Milton! Duro e pungente. Como a vida! Obrigado pela iniciativa de compartilhar. Grande abraço

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