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OS BLOCOS VÃO SALVAR O CARNAVAL

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Gosto do Carnaval brasileiro.Aprecio as Escolas de Samba e o espetáculo que fazem na “avenida”,especialmente no Rio e em São Paulo. É a tradição se fazendo presente,trazendo as Escolas, cada vez mais luxuosas, e o samba-enredo vivo,contando histórias e fazendo o povo cantar.

Compreendo que os grandes carnavais de salão hoje ficam proibitivos,dado o número de foliões cada vez buscando mais espaço nas ruas.Os clubes ficaram pequenos.As ruas das cidades brasileiras substituíram os salões.Caminhões de som e bandas em palanques armados garantem a música para o povo brincar.

Interessado em participar da festa,procurei em sites e e-mails promocionais ingressos para ir ao “sambódromo” ou a algum show carnavalesco. Vejam o que estão ofertando:

-RIO,Carnaval dos Sonhos-show dentro do estádio do Maracanã-Primeiro dia:Vintage Culture, Chemical Surf, RDT e Bruno Be; Segundo dia:Wesley Safadão, Matheus e Kauan,JetLag e José Pinteiro; Terceiro dia: Jorge e Mateus,Alok, Jeito Moleque,Radiomatik

-CAMAROTE na Marquês de Sapucaí-Programação-Domingo 11/2 :Steve Angello,Preta Gil,Samantha Schimutz,Zeeba.e outros;Segunda 12/02:Black Coffee,Sideral Convida,Emanuelle Araújo e Digão, Make U Sweat,Ella Beats e outros;Sábado 17/02: Anitta,Jack Lag ,Michel Saad e outros

Sem querer criticar essas “bandas” e “artistas”, a maioria deles totalmente desconhecida por mim,o que me espanta é colocá-los em destaque na festa mais tradicional do Brasil. Claro que temos que admitir evolução na promoção do evento carnavalesco.Mas que a palavra EVOLUÇÃO seja grifada para dar-lhe seu real significado:Uma evolução remete para o aperfeiçoamento crescimento  ou   desenvolvimento de uma ideia, sistema, costume ou indivíduo”.

Os camarotes já nos remetem a pelo menos duas coisas:1- Necessidade de maior faturamento por parte dos promotores/patrocinadores do evento;2-Alternativa para pessoas abonadas e/ou que querem aparecer em revistas de badalação , que não querem ficar vendo o tempo todo os desfiles das Escolas (vão ao Sambódromo só para badalação;alguns famosos ganham para aparecer nos camarotes). Seria isso “evolução” da festa mais popular do Brasil?

Chegam-me notícias de vários carnavais Brasil afora,usando atrações consagradas pelas mídias de massa como chamariz para a “rentabilidade” do evento.Os tais “sertanejos universitários”, da “sofrência” ou do “arrocha”,funkeiros e quetais vão atrair foliões em capitais e até pequenas cidades do interior.Cobram um dinheirão das prefeituras,mas atraem públicos enormes. Seria isso “evolução” do nosso Carnaval ou não teria o Carnaval apenas se transformado em ocasião para as cidades apresentarem shows que podem até render dividendos eleitorais para candidatos a prefeitos,deputados e governadores?

Apesar de achar essa música desse pessoal ser de baixíssima qualidade, até entendo que se promovam seus shows ,porque boa parte da população,influenciada por tevês,rádios e vasta promoção midiática, quer ver seus “ídolos” e “saltitar” ao som de suas músicas.Pena que o nível cultural no Brasil esteja na  escuridão de um poço sem fundo.Como dizia Lulu Santos ,referindo-se à nossa música: “está numa fase anal”.

Até Salvador,berço de grandes Carnavais,que “evoluiu” criando “Trios Elétricos”,rende-se hoje aos shows em cima de caminhões e em camarotes bem patrocinados. Não é somente território do tolerável “axé”,mas espaço invadido por duplas sertanejas,funkeiros e por essa nova turma que canta uma tal de “Sofrência” em pleno Carnaval da alegria. “Evolução”?

Acho que o ano de 360 dias proporciona ocasiões para todo mundo expor suas músicas.Boas ou ruins. Os rodeios ,festas de peão,exposições de animais são palcos adequados a certos tipos de música. As Festas Juninas podem contemplar outros tipos e assim por diante. No Natal parece-me mais adequado ouvir-se “Noite Feliz”, “Jingle Bell”,”Então é Natal”, “White Christmas” etc. Deixem ,então, o Carnaval para as músicas que animam os foliões:marchinhas,sambas,frevo, o axé (merengado) e outras do gênero.

Vejo ,porém, uma luz que pode indicar o fim do poço escuro.O “povão” ,que gosta mesmo de brincar nos mais de 4 dias de folia e que não quer assistir a shows de “artistas” de ocasião nem pode pagar caro para visitar os camarotes, está se organizando em blocos que já ganham as ruas do Rio ,de São Paulo, contagiando outras cidades por esse Brasil afora.São centenas deles, animados principalmente por marchinhas, que permitem a pessoas de qualquer poder aquisitivo vestirem fantasias simples, improvisadas e espirituosas e se divertirem da melhor forma possível. Isso é CARNAVAL.Uma EVOLUÇÃO ,no caso,para resgatar características perdidas dessa nossa maior festa popular.

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Milton Pereira

Há mais de 30 anos como executivo de grandes empresas, hoje atua como Consultor em Liderança, Comunicação e Educação Corporativa.

2 comentários

  1. É isso mesmo, Milton. Há muito que observo o carnaval de São Paulo e Rio, tem agradado mais com as bandinhas de bairro que sai arrastando seus foliões, moradores locais, tocando ao estilo machinhas e frevos. E não poderia deixa de elogiar a cidade de Recife e Olinda que proíbe o toque outro ritmo que não seja o velho e maravilhoso frevo.

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