2

O ESPELHO PARA REFLEXÃO

Download PDF

espelhoEspelho é sempre um objeto que fascina não somente os narcisistas (” Narciso acha feio o que não é espelho” – Caetano Veloso em “Sampa”) mas também os que perscrutam sua identidade,sua origem,sua alma, por meio da investigação do semblante, do olhar, que sempre dizem mais coisas que um outro possa imaginar. Por segundos denunciam, escancaram verdades nem sempre ditas,vão fundo até a alma.

Certa vez ouvi pelo rádio notícia de uma enquete feita com mendigos moradores de rua pela qual se perguntava o que cada um queria de presente.Uma resposta soou intrigante e ao mesmo tempo profunda: ” queria ter agora um espelho“. Fiquei buscando entender essa resposta. Imaginei o quanto um simples espelho faria diferença para um pobre mendigo cuja identidade fora perdida há tempos e cuja fisionomia lhe pudesse fazer reencontrar-se consigo mesmo, em instantes,talvez, em que a vida lhe dera dignidade.

O saudoso sambista e personalíssimo intérprete da melhor música brasileira João Nogueira e o poeta Paulo César Pinheiro, seu parceiro constante, compuseram o samba ” ESPELHO”. Os versos nostálgicos trazem à lembrança fatos marcantes da infância,da convivência com os pais. E declaram o medo de essa “herança” se perder – “o espelho se quebrar”.

                                                                                   ######

ESPELHO

Nascido no subúrbio nos melhores dias
Com votos da família de vida feliz
Andar e pilotar um pássaro de aço
Sonhava ao fim do dia ao me descer cansaço
Com as fardas mais bonitas desse meu país
O pai de anel no dedo e dedo na viola
Sorria e parecia mesmo ser feliz

Eh, vida boa
Quanto tempo faz
Que felicidade!
E que vontade de tocar viola de verdade
E de fazer canções como as que fez meu pai (Bis)

Num dia de tristeza me faltou o velho
E falta lhe confesso que ainda hoje faz
E me abracei na bola e pensei ser um dia
Um craque da pelota ao me tornar rapaz
Um dia chutei mal e machuquei o dedo
E sem ter mais o velho pra tirar o medo
Foi mais uma vontade que ficou pra trás

Eh, vida à toa
Vai no tempo vai
E eu sem ter maldade
Na inocência de criança de tão pouca idade
Troquei de mal com Deus por me levar meu pai (Bis)

E assim crescendo eu fui me criando sozinho
Aprendendo na rua, na escola e no lar
Um dia eu me tornei o bambambã da esquina
Em toda brincadeira, em briga, em namorar
Até que um dia eu tive que largar o estudo
E trabalhar na rua sustentando tudo
Assim sem perceber eu era adulto já

Eh, vida voa
Vai no tempo, vai
Ai, mas que saudade
Mas eu sei que lá no céu o velho tem vaidade
E orgulho de seu filho ser igual seu pai
Pois me beijaram a boca e me tornei poeta
Mas tão habituado com o adverso
Eu temo se um dia me machuca o verso
E o meu medo maior é o espelho se quebrar (Bis)

######

João, que se orgulhava muito do seu pai e da formação que teve, ao se ver também pai (seu filho hoje é também o bom sambista Diogo Nogueira) , em inspiração conjunta com o parceiro Paulo César Pinheiro,os dois fizeram em continuação ao “Espelho” (após 20 anos), outro samba com uma letra linda, muito inspirada.

ALÉM DO ESPELHO

Quando eu olho o meu olho além do espelho
Tem alguém que me olha e não sou eu
Vive dentro do meu olho vermelho
É o olhar de meu pai que já morreu
O meu olho parece um aparelho
De quem sempre me olhou e protegeu
Assim como meu olho dá conselho
Quando eu olho no olhar de um filho meu

A vida é mesmo uma missão
A morte uma ilusão
Só sabe quem viveu
Pois quando o espelho é bom
Ninguém jamais morreu

Sempre que um filho meu me dá um beijo
Sei que o amor de meu pai não se perdeu
Só de ver seu olhar sei seu desejo
Assim como meu pai sabia o meu
Mas meu pai foi-se embora no cortejo
E eu no espelho chorei porque doeu
Só que olhando meu filho agora eu vejo
Ele é o espelho do espelho que sou eu

A vida é mesmo uma missão
A morte uma ilusão
Só sabe quem viveu
Pois quando o espelho é bom
Ninguém jamais morreu

Toda imagem no espelho refletida
Tem mil faces que o tempo ali prendeu
Todos têm qualquer coisa repetida
Um pedaço de quem nos concebeu
A missão de meu pai já foi cumprida
Vou cumprir a missão que Deus me deu
Se meu pai foi o espelho em minha vida
Quero ser pro meu filho espelho seu

A vida é sempre uma missão
A morte uma ilusão
Só sabe quem viveu
Pois quando o espelho é bom
Ninguém jamais morreu

E o meu medo maior é o espelho se quebrar
E o meu medo maior é o espelho se quebrar
E o meu medo maior é o espelho se quebrar
E o meu medo maior é o espelho se quebrar

######

E para encerrar essa “reflexão” que vem  do ESPELHO, arremato com um poema do grande poeta gaúcho MARIO QUINTANA  que é outra “luz” forte que o ESPELHO irradia:

O Velho do Espelho

Por acaso, surpreendo-me no espelho: quem é esse
Que me olha e é tão mais velho do que eu?
Porém, seu rosto…é cada vez menos estranho…
Meu Deus, Meu Deus…Parece
Meu velho pai – que já morreu!
Como pude ficarmos assim?
Nosso olhar – duro – interroga:
“O que fizeste de mim?!”
Eu, Pai?! Tu é que me invadiste,
Lentamente, ruga a ruga…Que importa? Eu sou, ainda,
Aquele mesmo menino teimoso de sempre
E os teus planos enfim lá se foram por terra.
Mas sei que vi, um dia – a longa, a inútil guerra!-
Vi sorrir, nesses cansados olhos, um orgulho triste…

 

 

Download PDF

Milton Pereira

Há mais de 30 anos como executivo de grandes empresas, hoje atua como Consultor em Liderança, Comunicação e Educação Corporativa.