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MÚSICA POPULAR BRASILEIRA: OS CLÁSSICOS E OS DESCARTÁVEIS

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Clássicos da MPBNOSSA MÚSICA, DIVERSA,RICA

A Música Popular Brasileira sempre foi considerada uma das mais ricas do mundo. Diversa, a MPB se manifesta de forma peculiar em todas as regiões do país. Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Pará, Pernambuco, Bahia cultivam estilos musicais característicos. Do Nordeste vem uma série de ritmos que genericamente se conhecem por “forró”. O samba ganhou vários “contornos”,tendo o Rio,então capital da república, como seu principal foco irradiador: Samba Canção, Bossa Nova, Samba de Breque,Samba Enredo etc.Da Bahia veio o Samba de Roda.

Nomear todos os ritmos brasileiros é tarefa para especialistas. Lembro alguns: Lambada, Carimbó, Baião, Xote, Xaxado, Repente, Embolada, Frevo, Samba (em todas as suas ramificações), Lundu, Fandango, Maxixe, Choro, Chorinho, Toada, Modinha, Seresta, Marchinha, Marcha-Rancho,Valsa Brasileira, Música Caipira, Música Sertaneja, , Chula, Vanerão, Axé e simplesmente MPB (de Tom, Vinicius,Chico,Caetano,Gil, Milton e tantos outros).

Como manter esse “patrimônio artístico e cultural” do Brasil? Comunidades em todo o país conseguem resistir a tudo que as poderosas mídias fazem para destruir tradições. Há Centros de Tradições Gaúchas- CTG , Centros de Tradições Nordestinas-CTN, cidades históricas onde se cultivam serestas, festas populares em que se consegue ouvir a música pura tradicional,Rua do Choro  em São Paulo e Clube do Choro em Brasília,restaurantes e bares com boa música brasileira ao vivo,publicações que contam e recontam histórias da MPB, e alguns raríssimos canais/programas de televisão que divulgam a autêntica música brasileira.Rolando Boldrin e TV Cultura são exemplos desse trabalho diferenciado.

A TELEVISÃO ESTÁ EM OUTRA

A poderosa Televisão, que dita costumes e tendências em todas as atividades humanas, e que tem um público cativo enorme é regida pelas leis de mercado.Vai ao ar o que dá ibope e se traduz em lucro para os concessionários. Duas questões se impõem fazer sobre a programação da Televisão:

1-Oferece o que o público quer ou o público quer porque ela oferece?

2-Não poderia dedicar algum espaço para melhorar o nível cultural das pessoas?Não poderia sempre nos programas de maior audiência incluir “temas” que “puxassem” o público para a melhoria do seu “nível cultural”?

Pelo visto as leis de concessão ou não tratam do assunto ou são inócuas. Não sei se ainda vigora dispositivo que exigia que as estações de TV tivessem um percentual de filmes nacionais e as de Rádio, um percentual de músicas brasileiras. Era comum as Rádios cumprirem a lei , programando músicas brasileiras para as madrugadas, de menor audiência e, em consequência,de menor faturamento.Hoje, com a grande aceitação de músicas brasileiras de baixa qualidade, a exigência deve ter perdido sua eficácia.

A TV Globo mantinha uma série de programas homenageando os grandes compositores brasileiros. Excelente!Só que iam ao ar lá pelas duas da madrugada, depois do Jô e de algum filme.

OS “CLÁSSICOS” DEVERIAM PERDURAR, APESAR DA EVOLUÇÃO

Não se pode desconsiderar obviamente a “evolução” em todos os campos da atividade humana.A MPB, em particular, nunca deixou de produzir grandes músicos,músicas, compositores,cantores e instrumentistas. Nada diferente com o que acontece em qualquer país. Os “sons modernos”, dançantes, devem mesmo acompanhar o caminhar de cada nova geração. Isso não invalida o cultivo do que é “clássico”, do que vai ficando como resultante dos melhores “achados” em termos de música. Por que as grandes orquestras sinfônicas continuam tocando Mozart e Beethoven? A pintura moderna, abstrata, não elimina o interesse pelos clássicos, românticos ou impressionistas. Há excelentes espaços no mundo todo para curtir Artes de todas as “escolas” e de todos os tempos.

Por que isso não se aplica ao caso específico da nossa melhor música? Os “achados” de Vinicius, Tom Jobim, Chico e Caetano estão aí para serem “consumidos”  ad eternum. Isso porque viraram “clássicos”. E o que é “clássico” não se descarta com o tempo.

E por que não dizer o mesmo de composições mais antigas? Noel Rosa, Ary Barroso , Ataulfo Alves e Caymmi são ou não são “clássicos” ? São nomes desconhecidos da maioria dos jovens de hoje.

E se falarmos,então, em Ernesto Nazareth, Zequinha de Abreu e Jacó do Bandolim, qual  jovem se habilita a dizer quem foram e o que compuseram? E -saibam todos-são igualmente “clássicos” da MPB. Então por que são desconhecidos e/ou esquecidos?

Desses nomes citados saíram ,pelo menos, três das músicas brasileiras mais conhecidas no mundo: Garota de Ipanema (Tom e Vinicius), Aquarela do Brasil ( Ary Barroso) e Tico Tico no Fubá (Zequinha de Abreu).

É pena que não haja grandes iniciativas que mantenham esses “clássicos” vivos, nas mídias, acessíveis ao grande público, e presentes no “repertório” das diversas gerações de brasileiros. A divulgação maciça se ocupa basicamente do “descartável”, aquilo que toca, toca e passa rapidamente, até surgir um novo hit. Um “tapinha não dói” é logo substituído por um “beijinho no ombro”.

À ESPERA DE NOVOS GRANDES MOVIMENTOS

Há sempre esperança de que as décadas de 60 e 70 (do século passado) se reproduzam em algum momento com o surgimento de novos movimentos musicais, trazendo safras de grandes compositores e resgate das obras “clássicas” da nossa MPB. Nos anos 60, na onda dos Festivais da Canção e com apoio significativo da TV Record, o Brasil conheceu um sem número de compositores, intérpretes  e  composições “clássicas”. A última grande safra de talentos.Na década de 70 , o Chorinho saiu da gaveta e reapareceu com muita força;  o Samba teve seu momento de glória. Grandes instrumentistas lotavam as salas de espetáculo. Surgiram “Sambões” nas noitadas das grandes cidades. Altamiro Carrilho, Waldir Azevedo, Paulo Moura, Sivuca e tantos outros viraram pop .Paulinho da Viola,Clara Nunes, João Nogueira, Beth,Martinho da Vila, Alcione, Roberto Ribeiro trouxeram,além de novos  sambas, composições de Cartola, Nelson Cavaquinho e de tantos outros sambistas, antes restritos às quadras de Escolas de Samba. A Tropicália, além de produzir belas canções,teve também um papel importante : tratou de “resgatar” Luiz Gonzaga, Carmen Miranda e um monte de “craques do passado”. Elizeth ,Elis e outras fabulosas intérpretes surgiram para dar vida a tanta música de qualidade que surgia.

Até um “mecenas” surgiu nessa época : Marcus Pereira. Era empresário, publicitário, que criou uma gravadora independente para lançar no mercado Cartola , Ernesto Nazareth, Banda de Pífanos de Caruaru, Paulo Vanzolini, Quinteto Armorial e dezenas de compositores e intérpretes colocados de lado pelas grandes gravadoras.Era um cara que não tocava instrumentos e não cantava, mas que se transformou numa personagem muito importante para a MPB, por registrar em coletâneas de disco artistas colocados à margem do dito “mercado fonográfico”. Chegou a lançar em um ano mais de 20 discos. Era um sonhador,idealista, que acreditava que podia lutar contra as forças do mercado. Seu catálogo chegou em 9 anos a registrar cerca de 140 lançamentos. Sobre a repercussão de seus lançamentos escreveu:

“Essa repercussão, na verdade, deve-se à beleza e comunicatividade de uma riqueza enorme que estava enterrada, neste país de tantas riquezas enterradas, e da qual nós colhemos pequena amostra, que é a cultura de nosso povo”.

As forças do mercado o venceram, mas ele deixou um legado e um exemplo a ser seguido.

É uma pena que muitos ritmos brasileiros estão quase extintos, não tendo “palcos” para sua exibição. Que um dia renasçam como fez o Chorinho nos anos 70. Que não precisemos viajar para o exterior para ouvir os melhores “clássicos” da MPB

 

 

 

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Milton Pereira

Há mais de 30 anos como executivo de grandes empresas, hoje atua como Consultor em Liderança, Comunicação e Educação Corporativa.

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