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MÚSICA DE FESTA, PRÊMIO MULTISHOW E NOBEL

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musica-ruimNa falta de uma classificação melhor, vou denominar “Música de Festa”(MF)  essa “avalanche” de hits que dominam o mercado da música,ocupando quase todos os espaços da TV, Rádio e mídias em geral, enriquecendo produtores,compositores e intérpretes, que colocam milhares de pessoas em seus shows , preferencialmente a céu aberto.

São músicas com letras em geral fracas, rimas pobres, mas de fácil assimilação, que apelam ou para um romantismo repisado ou para a sensualidade. A melodia é a mais primária possível e o ritmo sacolejante é indicado  a grandes concentrações de público.

Essas MF’s, sem nenhum compromisso com a posteridade, pois são efêmeras com morte breve anunciada, como um “trator” passaram por cima das melhores composições e propostas da boa MPB, deturpando-as ou ignorando raízes , evolução e suas características mais “nobres”. Avacalharam o grande samba, enfiando goela abaixo “bolerinhos” com ritmo de samba a que deram o nome de pagode; desconsideraram a autêntica música caipira e a bem elaborada música sertaneja, para entrar, à guisa de evolução, com o chamado “sertanejo universitário”; invadiram o Carnaval a partir da Bahia, destronando marchinhas, frevos e similares, com uma categoria chamada Axé que, hoje, abarca gêneros variados como salsa e merengue (dos nossos vizinhos caribenhos) até falsos forrós, sofrências e quetais.

Essa “Música” de baixa qualidade não é característica da época atual.Sempre existiu.Tempos atrás bolerões tomavam conta de salões de dança, no tempo em que se dançava cheek to cheek. Muita música estrangeira dominava a mídia até por imposição de gravadoras.Depois vieram as Rádios FM tocando maciçamente música estrangeira, com ênfase em americanas de baixa qualidade, mas dançantes.Muita música brega ruim surge de tempos em tempos. Aí vejo um ponto positivo nas MF’s de hoje:estão enriquecendo centenas de artistas brasileiros.  Músicas francesas e italianas,por exemplo,que tiveram seu auge por aqui principalmente nos anos 1960,1970, hoje andam sumidas. As boas músicas estrangeiras desde os Beatles, passando por cantores do naipe de Sinatra, Ray Charles, Sarah Vaughan e tantos outros não tiveram substitutos à altura por aqui nesses tempos de “MF”. Chegam muitas músicas americanas chatas que fazem a alegria de calouros da TV ou fundo musical de shopping centers.

A população cresceu, o mercado cresceu,o consumismo assumiu proporções gigantescas estimulado pelos infindáveis mecanismos que a sempre inovadora tecnologia dispõe. E isso,pelo menos em termos de música, parece ser incompatível com qualidade. Massas sedentas por entretenimento cobram lançamentos e lançamentos.E a grana, que isso tudo atrai, manda às favas o preciosismo, o requinte, a elaboração artesanal bem cuidada. A pressa para se ganhar dinheiro exige produção instantânea para aproveitar eventos,feiras,exposições,micaretas e carnavais.E aí só as MF’s entram na competição.A TV, que funciona por “ibopes”,escancara suas portas para cantores e cantoras bonitinhos,engraçadinhos e sensuais. Todo cantor quer achar um hit para estourar no Carnaval e lhe garantir grana ( a “grana que ergue e destrói coisas belas”,como diz Caetano).

Acho que o problema está na dose. Entende-se até que o “exército” de jovens hoje, sequioso por baladas,shows, raves etc, demande músicas dançantes para gastar toda sua energia.Faz parte do “repertório” deles.O que se lamenta é que essa avalanche de “músicas descartáveis” invada todos os espaços e programações de TV e Rádio, não permitindo que grande parte desses jovens conheça a boa música. Que lhes seja oferecida a oportunidade também de curtir a MPB que vai se tornando clássica com o tempo. Como apreciar os nossos grandes compositores e intérpretes se não os fazemos conhecidos?

À margem disso tudo vão ficando artistas que não abrem mão da qualidade em suas composições. Sobram para eles teatros e salas de espetáculo que atraem seletivamente públicos fieis,deixados de lado pelas mídias de massa . O positivo é que essas  casas de espetáculo vivem cheias. E não são só “coroas” de cabelos grisalhos os frequentadores.Encontram-se lá muitos jovens que ,por muitas razões, conseguiram “safar-se” dessa imposição das mídias de massa, furaram o cerco e descobriram que há muita coisa boa na MPB para ser explorada.

Importante salientar que a boa MPB não vem só do passado nem só dos “anos dourados” de 1960 e 1970. Ela se revigora na “calada da noite”, reunindo hoje gente muito boa que vai “carregando a  bandeira com classe”.

ENQUANTO ISSO…

O 23º PRÊMIO MULTISHOW de Música ( 25/10/2016) premiou pelo voto popular os seguintes “artistas” :

Melhor Cantora :Ivete Sangalo

Melhor Cantor:Luan Santana

Melhor Grupo :Henrique e Juliano

Melhor Show: Anitta

Melhor Música:Blecaute – Jota Quest e Anitta

Música Chiclete:Camarote – Wesley Safadão

Experimente:Simone e Simaria

Melhor Clipe TVZ :Luan Santana – Eu, Você, o Mar e Ela

E…

A MÚSICA DE BOB DYLAN LHE DÁ O PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA.

(Abre uma brecha para almejarmos-quem sabe- o primeiro Nobel brasileiro entre um dos nossos “artistas” premiados!)

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Milton Pereira

Há mais de 30 anos como executivo de grandes empresas, hoje atua como Consultor em Liderança, Comunicação e Educação Corporativa.

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