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MINISTÓRIAS

ALGIAS

Médico  – Respire fundo!Diga 33! Dói aqui?

Paciente – Doutor,o que dói é lembrar que nasci em 1933! Numa cidade pequenininha, onde todos se conheciam.Aquilo é que era vida!Agora com 84 anos morando nessa megalópolis?!…

Médico – O senhor sente cefalalgia?

Paciente – Dor de cabeça?Dor de cabeça começou mesmo quando vim morar aqui e deixei aquela vidinha tranquila.

Médico – Vou apertar aqui… sente lombalgia?

Paciente -Não,doutor.Meu “lombo” sempre foi bem cuidado ,porque no interior praticava esporte.Todo dia ia para o campo de futebol.Jogava ,jogava …a coluna nunca reclamou.

Médico – Muitas vezes,por algum esforço acima do normal, uma região muscular fica afetada.O senhor sente alguma dor localizada,por exemplo no pescoço?Pode ser uma mialgia?

Paciente– Não dói nada nessa região. Mialgia me faz lembrar o Lelinho…

Médico– Lelinho?

Paciente– Sim doutor .Um gatinho que tínhamos lá em casa, nos bons tempos do interior.Era todo amarelinho .Eu tinha uns oito anos ,e ele dormia todo dia comigo.

Médico – Vamos tentar mais uma vez:artralgia é uma dor nas articulações. Conhecida por dor nas juntas.O senhor sente alguma dor nos cotovelos, nos…?

Paciente – Doutor, agora o senhor acertou na veia.O que mais sinto é dor de cotovelo. E não passa. Não consigo esquecer a Doroty, uma paixão dos meus 15 anos de idade. E eu a perdi para o meu melhor amigo de colégio. O tempo passou. Doroty se casou com outro homem.Eu me casei, mas essa perda na adolescência dói muito.E como dói!

Médico – Já tenho o diagnóstico!

Paciente– Como, doutor? O que é que eu tenho?

Médico – NOSTALGIA!!!

O EXEMPLO VEM LÁ DE CIMA

Os três filhos de Virgínia, Lucas, Mateus e André, aproveitaram um dia de folga da escola para chamar o amiguinho vizinho Pedro e o filho da empregada Josué para desfrutarem de uma bem montada sala de jogos eletrônicos em sua casa.Um desbunde! O quarto adaptado para jogos tinha de tudo: Vídeo Games variados, Jogos de Simulação,Puzzle, Jogos de Estratégias Jogos Esportivos,Jogos de Plataforma 3D entre outros.  A condição estabelecida pelos pais dos meninos era que só usassem a “sala” nos finais de semana e em folgas escolares. E que se saíssem bem nos boletins mensais. Tudo consensual e muito bem estabelecido com os filhos.Os pais dão conforto aos filhos, atendem às suas demandas desde que razoáveis,mas exigem contrapartidas, como ,por exemplo, cumprimento dos deveres escolares, ordem e disciplina em casa quando eles saem para o trabalho. São generosos ,porém muito exigentes em relação ao que for combinado. Gostam de se gabar com os amigos a respeito dos eficientes métodos educacionais adotados em casa.

A meninada, todos de idade em torno dos 8 anos, entrou na sala de jogos como se estivesse conquistando o paraíso.Cada um correu para o jogo de sua preferência. Havia opções para todos.

Em um determinado momento ( a garotada logo se cansa  de uma atividade e inventa outra), Lucas, o mais velho da turma, larga o jogo e desafia Pedro, o vizinho, a pegá-lo em disparada corrida pela casa. Foi um tal de pula janela,entra em quarto,sai de quarto,corrida pelo quintal…isso tudo para desespero da empregada Isabel que tentava botar ordem na casa, lembrando os moleques  de que há uma regra importante estabelecida pelos pais: brincar só na sala de jogos e evitar bagunça nos outros cômodos. Mas, nessa hora de êxtase e de adrenalina ao máximo , quem é que escuta a pobre moça?

Ao tentarem atingir a linha de chegada , que era exatamente a “sala” onde os outros estavam jogando, passando pelo hall dos quartos,Lucas,no afã de vencer o adversário Pedro, tropeça no pé de uma console e derruba o vaso chinês de estimação da família : cacos pelo chão e rostos desfigurados.”O que vamos contar para dona Virgínia? Quebramos o vaso que ela mais adorava e de quebra quebramos o acordo firmado que nos liberava a sala nos finais de semana?” Quebradeira geral!

Não demora e Virgínia chega. A empregada tinha varrido o hall e sumido com os pedaços do vaso. A meninada jogava em meio a um silêncio incomum. Ninguém queria falar nada, na esperança de o fato passar despercebido pelo menos naquele dia.Amanhã voltariam todos para a escola, lá ficariam o dia inteiro, mamãe iria dar falta da preciosa relíquia e teria tempo de – quem sabe- refletir e perdoar os infratores. Isso porque ninguém estava disposto a confessar a autoria do “crime”. Havia ainda uma hipótese mais otimista: dona Virgínia achar que o vaso caíra e se quebrara por ação de um vento ou obra da empregada desastrada.

Virgínia jamais iria deixar de dar falta do famoso vaso. É cuidadosa,detalhista e perfeccionista. Gosta da casa rigorosamente em ordem e tudo nos seus devidos lugares. Além disso, o vaso de estimação ficava em destaque na console do hall dos quartos ,iluminado permanentemente por um spot de luz. Para acessar os quartos e a sala de jogos necessariamente passaria ao lado da console. E não deu outra. Antes de visitar os meninos , dispara um grito nervoso : “cadê o vaso!  Isabel,onde você colocou meu vaso?”

Sem esperar pela resposta,adentra a sala de jogos,onde se ouvia apenas o burburinho  dos jogos eletrônicos . Os meninos ,todos compenetrados nos seus respectivos cockpits.

Virgínia interrompe o silêncio suspeito e vai logo perguntando:”alguém pode me dar notícia do meu vaso chinês?” Ninguém responde.Eles se entreolham preocupados,mas não dispostos a responder.Virgínia insiste: “Perderam a língua? Alguém pode me dizer o que aconteceu?”. E volta a chamar pela empregada.

Isabel chega na porta, olha para os garotos,mas permanece muda.Virgínia continua o interrogatório:”Já sei que vocês não respeitaram o nosso acordo.E ,pior,deram sumiço no meu vaso.Por acaso, Isabel,você tirou o vaso do lugar?”. “Não ,senhora…eu só limpei os cacos!…”

Pronto, Virgínia fica uma fera.”Vocês vão ficar dois meses e mais as férias sem usar essa sala,que vai ficar trancada!”

André, o caçula de 7 anos,resolve falar: “Eu gravei no meu celular quando o vaso caiu e quebrou…” Lucas, praticamente se entregando, interrompe:” Mentira…você estava jogando com o Mateus e Josias,na sala …como é que conseguiu filmar?” Virgínia pede o celular para constatar o que já parecia esclarecido. Pedro,o vizinho,tenta explicar-se ,aumentando as evidências. Mas o caçula André é que fala:

-” Mamãe, eu te empresto o celular,se eu ficar livre do castigo”.

(Essa historinha termina aqui.Já é suficiente para refletirmos sobre a gênese de um traço cultural que germina a partir das crianças “contaminando” gerações- jun/2017).

 

 

Milton Pereira

Há mais de 30 anos como executivo de grandes empresas, hoje atua como Consultor em Liderança, Comunicação e Educação Corporativa.

2 comentários

  1. Adorei as duas história. A da nostalgia, acredito que aconteça com uma certa regularidade nas nossas vidas. A segunda mostra bem os dias atuais. O desafio na educação de filhos, o significado e prática de responsabilidade, limite e ética. Abs. Simone Barbosa

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