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GENERALISTA X ESPECIALISTA

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Generalista x EspecialistaLEAD

Há vários trabalhos acadêmicos que abordam em profundidade a questão da COMPLEXIDADEDIVERSIDADE, principalmente para fundamentarem a questão da interdisciplinaridade nos currículos universitários. Vou me restringir ao tema, vinculando-o especificamente às empresas, refletindo sobre seus impactos no perfil  GENERALISTA ou ESPECIALISTA dos profissionais.

Saber pouco de muito=GENERALISTA ; saber muito de pouco=ESPECIALISTA.

No mundo corporativo de hoje convive-se com um paradoxo curioso: aumenta a DIVERSIDADE, que exige profissionais generalistas; a DIVERSIDADE faz aumentar a COMPLEXIDADE,que exige profissionais especialistas.

E como estruturar as diversas áreas da empresa entre os perfis generalistas e especialistas?

OS PARADIGMAS E SEUS EXCESSOS

A COMPLEXIDADE faz com que a ESPECIALIZAÇÃO beire às raias do exagero. Isso gera reação. Senão vejamos.A gradativa fragmentação do “todo” em múltiplas partes para sua melhor compreensão  (“paradigma cartesiano”) trouxe, em muitos casos ,a perda da própria noção do “todo”. Descemos ao nível de “árvore”, depois de “folha”, e perdemos a noção de “floresta”.

Na Medicina, os generalistas deram lugar aos especialistas.Ortopedistas se especializaram em joelhos, em ossos das mãos etc. Na Universidade,as especialidades há muito tempo predominavam. Psicologia,Sociologia e Pedagogia,por exemplo, representavam campos isolados de conhecimentos, com baixa permeabilidade entre seus currículos.  Na Empresa, as caixinhas (“cubículos” segundo Toffler) se multiplicaram ad infinitum, tendo especialistas para tudo. São departamentos que se quebram em divisões que se quebram em setores e assim por diante. Os cargos também se fracionaram em analista sr, analista pl, analista jr e vai por aí afora.Neste caso, o argumento “dividir para controlar” também imperou, reforçado pelo “paradigma cartesiano”.

“Toda ação gera reação”. Os excessos , questionados, começam hoje a ser compensados pela volta da “generalização”,que é a tentativa de recompor o todo. Avanços da Ciência, em especial da “engenharia genética”, dão conta de que não só as partes estão no todo mas também o todo também pode estar nas partes. Características singulares de um indivíduo podem ser detectadas em seu fio de cabelo (Aliás,seria bom que a empresa, refletindo sobre isto, pudesse considerar que um funcionário atendente,na linha de frente, é a voz da própria empresa ;fala por ela, representa-a).

Na Medicina, surgem e/ou reforçam-se as figuras dos generalistas, “médico de família”, “clínico geral”, “terapias holísticas” etc. Afinal um remédio prescrito para o pulmão pode fazer mal ao fígado e vice-versa.

Na Universidade ,por exemplo, cursos de Psico-Pedagogia ou de Psicologia Social unem conhecimentos de diversas áreas.

Na Empresa, já se chegou à conclusão que é custoso e improducente expandir “cubículos” infinitamente. Além do quê, isso se torna inadministrável. Vejo hoje diretores acumulando RH, Tecnologia, Patrimônio e otras cositas más; áreas , antes separadas feudalmente,hoje aproximadas numa mesma microestrutura.

GENERALISTAS E ESPECIALISTAS IMPRESCINDÍVEIS

Voltemos ao PARADOXO  citado no lead da matéria. O mundo está mais “diverso”. A Tecnologia produz inovação contínua. Produtos novos são lançados a cada dia. Descobertas nas ciências são agilizadas pelas ferramentas tecnológicas sempre aperfeiçoadas.Todo mundo tem exemplo a dar para ratificar a diversidade. Vou citar um bem simples: se for possível ( os mais velhos sabem melhor), comparem uma Banca de Revistas de 50 anos atrás com uma de hoje; é imensamente maior a quantidade de “títulos” de hoje; há revistas para todos os gostos: gastronomia,alimentação saudável, ocultismo,horóscopo,decoração,móveis para casa de praia,móveis só para cozinha etc etc etc. O vendedor logicamente não é um especialista, conhecendo detalhes das publicações; terá que ser um bom generalista para identificar e indicar com a mais acurada precisão aquilo que o consumidor deseja.

A “gestão” da DIVERSIDADE exige profissionais generalistas que tenham maior compreensão do todo e interconexão entre as partes.Mas ,ao mesmo tempo, ela traz a COMPLEXIDADE que exige que a “gestação” dos conteúdos seja conduzida por especialistas.

Penso que entre os significados de “gestão” e “gestação” esteja o equilíbrio entre os dois tipos de profissionais. Ambos são imprescindíveis .

Veja mais essa metáfora. Quando se vai escalando uma montanha, quanto mais alto menos se tem a nitidez do que está lá embaixo, no sopé. Gradativamente amplia-se a capacidade de abstração , adquirindo-se mais capacidade de analisar a paisagem como um todo. Mal comparando, o Especialista é necessário para lidar com as coisas palpáveis do chão; o Generalista é necessário para avaliar a interferência do ecossistema sobre os micro-sistemas que compõem a “paisagem”. O Especialista cria as coisas ao pé da montanha. O Generalista interfere na gestão delas.

Reflitam sobre a “escalada da montanha” e vejam também a relatividade entre conceitos. O Diretor Jurídico de uma empresa,por exemplo,é especializado em Direito. É um especialista em relação ao CEO , o “maior” dos generalistas. Mas, em relação ao seu especialista em Tributos, ele pode ser um generalista . Quem deveria entender mais de gestão de pessoas é o Diretor de RH, mas ele é generalista em relação ao seu profissional especializado em Remuneração e Benefícios.

Acontece,como vimos, que à medida em que se “sobe” na organização,para conseguir “gerir” um conjunto maior de “coisas”, amplia-se o grau de generalização (abstração). Um gestor deve ser um generalista em relação às diversas especialidades de sua área.

NEXIALISTA , UMA NOVA FIGURA

Parece existir ainda um vazio entre a “gestação das coisas” e a “gestão das coisas”. O gigantesco processo de transformação das “coisas” no mundo de hoje exacerba a distância entre Especialistas e Generalistas. Uns que se “apaixonam” tanto pelas folhas e só as veem à frente e outros que se inebriam pela visão da floresta e ignoram as “árvores”.Daí aqueles “movimentos” de reação a que me referi em prol da “generalização” ou da “conexão” entre os conhecimentos detidos pelas partes. Impropriamente,Generalistas são tachados de superficiais e Especialistas de “bitolados”  (“sambistas de uma nota só” ou até de alienados).

Abre-se espaço para o NEXIALISTA, na essência um líder “capaz de estabelecer conexões entre as áreas da organização,fazer relações relevantes entre dados,padrões e teorias aparentemente desconexos e,ao cruzar essas informações,facilitar para o grupo encontrar soluções. Somente indivíduos de mente desbravadora capaz de abrir fronteiras podem criar condições para que os conhecimentos,por exemplo,de Marketing,de Finanças e de Recursos Humanos se unam, se conectem para gerar inovação…Nem sempre o especialista é quem encontra a saída para problemas específicos,assim como os generalistas também não conseguem resolver todas as equações que surgem no dia a dia”.(Fonte Livro ” TRABALHO COM SIGNIFICADO”Editora Qualitymark ).

Mas fiquemos por aqui. Nexialismo é outra conversa,mais extensa, que vou deixar para um próximo post. 

O entendimento de todos esses conceitos e uma boa dose de reflexão podem determinar reestruturações mais efetivas em sua organização, mesmo considerando todos os aspectos políticos que as envolvem. A escolha de perfis adequados para “gestão” e “gestação” das “coisas” muda radicalmente critérios de seleção ,reconhecimento e promoção das pessoas e promove mudança na conceituação de cargos, salários, nomenclaturas, atribuições etc. Não é tarefa fácil, pois as velhas estruturas se assentam em velhos, arraigados e “teimosos” paradigmas.

 

 

 

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Milton Pereira

Há mais de 30 anos como executivo de grandes empresas, hoje atua como Consultor em Liderança, Comunicação e Educação Corporativa.

5 comentários

  1. Olá Milton,

    Muito apropriado e necessário a distinção entre generalistas e especialistas feita por você.

    Gostaria apenas de ressaltar que essas funções sempre existiram (de modo explícito ou implícito), são complementares e interdependentes.

    No organograma funcional, o segundo nível, precisamente o da assessoria técnica da direção da organização, é subdividido em dois, tendo os generalistas liderando os especialistas, exatamente pelas características que você descreve muito bem no post acima.

    Parabéns!

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