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FALANDO DE MÚSICA

MPB: JÁ CHEGAMOS AO FIM DO POÇO?

( Parte I )

A polêmica sobre o “FIM DA CANÇÃO” agitou críticos, compositores e cantores quando Chico Buarque, em entrevista a jornais em 2009, declarou que a canção, como a conhecemos, pode ter se esgotado e estar encerrando seu ciclo na História. ” A canção talvez seja um fenômeno do século passado no Brasil.A minha geração, que fez aquelas canções todas,com o tempo só aprimorou a qualidade de sua música.Mas o interesse hoje por isso parece pequeno”.Chico se refere à canção mais elaborada musicalmente e com letras densas e ricas.

As declarações geraram concordância e discordância no meio musical.

Maestro Júlio MedagliaO futuro da música inteligente e criativa está nos mercados alternativos, em outros “becos das garrafas”. O artista deve esquecer as audiências de 60% (…)a música de qualidade será praticada até o ponto em que o primarismo atual e universal comece a cansar e novos e criativos repertórios sejam aos poucos solicitados.

Arthur Nestrovski, músico e crítico- O “fim da canção” aqui ganha vários sentidos: propósito e ponto de chegada,final de um tempo e finalidade sem fim. A canção brasileira não está perto do fim em nenhum sentido objetivo.

José Miguel Wisnik, professor,músico e ensaísta- A canção que está no centro do debate não é uma canção qualquer, mas aquela sofisticada melódica e harmonicamente, com letras densas e polissêmicas (…), irradiando lirismo e crítica social.

A julgar pela qualidade das músicas que são divulgadas nas mídias mais populares,somos obrigados a concordar que nossas “canções” perderam seu lugar , estando cada vez mais distantes do povo.A sociedade de consumo atingiu a produção artística, e seus “produtos” se tornaram descartáveis,servindo apenas e tão somente ao entretenimento passageiro. São como os produtos de plástico : mais baratos, atendendo à voracidade do consumo de massa. “Produtos” mais elaborados ficam restritos a “públicos” mais exigentes.

A televisão e as mídias impressas mais populares têm o poder de glamurizar personagens pelo seu visual , não importando o conteúdo apresentado. Viram “celebridades” da noite para o dia, arrebanhando uma legião de fans . Exemplos não faltam na cambaleante música popular brasileira.

EXEMPLOS DE LETRAS DE MÚSICA

1-Do chamado “sertanejo universitário” seleciono aleatoriamente versos dos galãs Victor e Leo, que fazem estrondoso sucesso:

Percebo que o tempo já não passa
Você diz que não tem graça amar assim
Foi tudo tão bonito, mas voou pro infinito
Parecido com borboletas de um jardim

Agora você volta
E balança o que eu sentia por outro alguém
Dividido entre dois mundos
Sei que estou amando, mas ainda não sei quem

2-Do “forró universitário”, extraio o refrão abaixo:

É nóis fazer “parapapa” “parapapa” “parapapa”
Agarrar, beijar
Fazer “parapapa”
É nóis fazer “parapapa” “parapapa” “parapapa”
Agarrar, beijar
Fazer “parapapa”

3-Do bonito e simpático Luan Santana, ídolo de multidões:

Ela é uma mulher menina
Que precisa urgentemente ser mais forte
Ela quer alguém que leia seu sorriso
Antes de olhar o seu decote
Ela vê suas amigas se entregando
Ao primeiro que aparecer
Numa tentativa boba de se preencher

Como disse,catei aleatoriamente  essas letras.Não conheço as melodias. Os leitores hão de convir que todas elas não têm o mínimo compromisso com beleza,estética,criatividade e riqueza de conteúdo. Um amontoado de ideias e rimas pobres (quando há).Que importa ! Prevalece o visual dos “universitários” que provoca delírio em multidão de fãs. Entretenimento passageiro. Ibope certo para os “domingões musicais”.

(Voltarei ao tema para mostrar o outro lado da moeda)

A RESIGNAÇÃO NAS LETRAS DE ADONIRAN

Andei observando que em várias personagens das canções de Adoniran Barbosa há um traço do sentimento de resignação, conformidade ante às mais difíceis situações.Não sei avaliar se isso advém da personalidade do compositor que ,em outra direção, se mostrou um grande gozador ,um brincalhão que se divertia com linguagens das “malocas”, dos “cortiços”, com formas simples de o povo se comunicar ( mesmo à custa de “agressões grosseiras” à Gramática). Incorporava a tudo isso sotaques de colônias de imigrantes que povoaram certos  bairros de São Paulo. Em algumas canções, Adoniran trouxe também o lirismo e a voz inaudível dessa gente simples, marginalizada na Grande Cidade. Há que se pontuar que Adoniran teve parceiros em suas composições. Logo vale investigar de onde vem tanta “resignação”.

Exemplos:

1- Em “Saudosa Maloca” (parceria com Oswaldo Molles) : “Mato Grosso quis gritá,mas em cima eu falei:os homis tá com a razão,nós arranja outro lugar.Só se conformemo quando o Joca falou:Deus dá o frio conforme o cobertor”.

2- Em “Iracema” : ” …o chofer não teve culpa…paciência,Iracema,paciência ! “

3-Em “Samba do Arnesto” ( parceria com Alocin), há uma “resignação parcial” : “…nóis fumo e não encontremo ninguém,nóis vortemo com uma baita de uma réiva, na outra vez nóis não vai mais”. Quando o Arnesto pede desculpas: ” você devia ter ponhado um recado na porta…”

4-Em “Despejo na Favela” : “Quando o oficial de justiça chegou lá na favela e contra seu desejo entregou pra seu Narciso um aviso pra uma ordem de despejo (…)Não tem nada não seu doutor, não tem nada não,amanhã mesmo vou deixar meu barracão (…) Pra mim não tem problema em qualquer canto me arrumo de qualquer jeito me ajeito …”

Milton Pereira

Há mais de 30 anos como executivo de grandes empresas, hoje atua como Consultor em Liderança, Comunicação e Educação Corporativa.

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