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EM QUE SUA EMPRESA ACREDITA ?

LEAD Iceberg

Os esforços para transformar a CULTURA de uma empresa podem ser inócuos se não forem considerados pressupostos ou crenças que se alinham no seu DNA. Pode-se criar uma enorme dissonância cognitiva entre o que se prega e o que se pratica. As aspirações de uma cultura que valorize,por exemplo, as pessoas podem sinalizar aos funcionários o contrário do que se pretende,ou seja a prática do dia a dia dissonante dos valores apregoados leva as pessoas a não se engajarem numa organização “cínica” ,que diz uma coisa e faz outra.

POR QUE ATUAR SÓ NA SUPERFÍCIE ?

Até dá para responder: porque é a parte mais visível e por isso mais tangível e fácil de “atacar”. Porque é nela que ficam os “comportamentos” perceptíveis sobre os quais atuar é bem mais fácil. “Com comportamentos dos funcionários eu lido bem; posso dar ordens e ,se a hierarquia for um ponto forte na empresa,eles obedecem;posso acenar com prêmios ou castigos e assim vou moldando comportamentos conforme o esperado pela empresa”.

Ir abaixo da superfície e encontrar crenças subjacentes que determinam aquilo que a empresa valoriza de fato dá muito trabalho. “É procurar pelo em ovo” – diria o acomodado RH.

Usando a imagem do iceberg, além das crenças,que ficariam na parte mais profunda,ainda “submersos” estariam os valores, os sentimentos , as atitudes.

VOCÊ CONHECE A IDENTIDADE DE SUA EMPRESA ?

A empresa tem uma história que narra os fatos de sua constituição,as características de seus fundadores,o processo evolutivo (fusões,aquisições,incorporações, novos negócios etc). Essa história permite que se conheçam os pressupostos básicos do negócio, a maneira peculiar de suas práticas administrativas, as concepções de seus líderes sobre Estratégias, Marketing, Finanças, Pessoas, Tecnologia,Gestão em geral etc etc. Disso tudo numa peneira escoa a Identidade ,que vai estar rondando a organização o tempo todo. É onde se situam os “core values” , os valores essenciais dos quais derivam outros tantos.Em camada ainda mais profunda  é que se encontram crenças, pressupostos que norteiam o pensamento de suas lideranças.

Evidente que nada é imutável no mundo de hoje.Até a Identidade pode sofrer mutações.Mas para isso o “tranco” que a empresa venha a sofrer tem que ser muito grande. Conhecer a Identidade de uma empresa é como conhecer a personalidade de uma pessoa.Imagino que isso seja importante para estabelecer o seu relacionamento com ela.

O QUE ACONTECE SE ALGUNS PRESSUPOSTOS ESTIVEREM ATIVOS?

Vou dar alguns exemplos de pressupostos que podem estar “rondando” sua organização. Procure imaginar o que está por trás  desses pressupostos. Para cada um vou postar algumas consequências/constatações possíveis.Seria bom se você,prezado leitor,imaginasse outras consequências,quem sabe até compartilhando o exercício com seus colegas.

PRESSUPOSTO 1 – As pessoas são por natureza preguiçosas. Para produzirem precisam ser fiscalizadas, controladas e ,se for o caso, punidas.

-A empresa terá muitos chefes controladores

-A confiança certamente não será um valor nessa empresa

-Difícil obter comprometimento, engajamento espontâneo dos funcionários

PRESSUPOSTO 2-A empresa depende de resultados que devem ser obtidos a qualquer custo.

-Os valores éticos podem não estar presentes

-A empresa só visa resultados econômico-financeiros

-Pessoas são “recursos” como quaisquer outros (materiais, financeiros,tecnológicos ) e,portanto,descartáveis quando necessário.

PRESSUPOSTO 3-O controle da empresa só é possível se a dividirmos em muitos “pedaços”, colocando um gerente em cada parte.

-Hierarquia exacerbada e rígida

-Ênfase em chefes e não em líderes

-“Dividir para governar” ( Maquiavel?)

-Estrutura custosa

-Eficiência prevalece sobre eficácia

PRESSUPOSTO 4-Cada área cuida de sua parte.Somente a “alta direção” possui os resultados do conjunto.

-Analogia da empresa com “linha de montagem”; cada pessoa (ou setor) é comparada com “peça de engrenagem”; cada uma cumpre seu papel atuando só em seu “pedaço”

-Motivação e Comprometimento com a empresa e seu negócio prejudicados

-Nível de contribuição das pessoas limitado

-Perda de sinergia

-Hoje cada vez mais impossível a afirmação: “minha área acaba onde começa a sua”

PRESSUPOSTO 5-Manda quem pode, obedece quem tem juízo.

-Limitação da capacidade humana de exercitar seu potencial e de crescer profissionalmente

-Criação de pessoas “robotizadas”, servis e subservientes

-Desperdício de criatividade e inovação

-Estabelecimento de duas camadas :alguns poucos que mandam e um punhado de gente que obedece

PRESSUPOSTO 6-Você pode errar desde que dentro das normas da empresa.

-Medo,imobilismo,engessamento

-Possível burocracia pelo “endeusamento” das normas

-Padronização em alta; diversidade em baixa

PRESSUPOSTO 7-Em uma empresa 20% têm potencial para crescer (talentos) e devem ser desenvolvidos, visando altos cargos; 70% fazem bem as tarefas , devem ser treinados e mantidos;10% não correspondem e devem ser demitidos.

-Avaliação usada também para punir

-Avaliação de desempenho pode valer mais que avaliação de potencial

-Distinção entre os talentosos(poucos) e os não-talentosos(muitos)

-Nem todos contratados podem ser considerados “talentos” , frustrando expectativas naturais de crescimento profissional de muita gente

 

Feito o exercício, comece a pensar em quantos valores apregoados não passam de aspirações ou credos que só servem para enfeitar as paredes da empresa. Reflita sobre a CULTURA REAL de sua organização,suas crenças e o que realmente VALE  para ela. A partir daí é possível pensar em trabalhar a  CULTURA de sua empresa,as atitudes e os comportamentos dela decorrentes. Lembre-se: são as crenças subjacentes que determinam os valores organizacionais.

 

 

Milton Pereira

Há mais de 30 anos como executivo de grandes empresas, hoje atua como Consultor em Liderança, Comunicação e Educação Corporativa.

6 comentários

  1. Milton, excelente reflexão! Fundamental entender o que realmente é a prática da empresa, como se diz, como as pessoas atendem e são parceiras (ou não) intra e interáreas, entre pares, liderados… só a coerência promoverá o engajamento espontâneo e verdadeiro!! Abraços

  2. Olá Milton!
    As vezes me pergunto se nós deveríamos engrossar nossa posição de críticos da mentira, das falácias, das soluções mágicas, do verniz enganador e outras práticas que só prejudicam pessoas sérias que trabalham muito para ajudar suas empresas chegarem ao sucesso. Acho que aquele nosso grupo deveria ressuscitar com uma proposta mais “posicionada”.
    O que vc acha?

    • Felipe, estou com você! Vamos reerguer o grupo , dando foco nessas verdades que precisam ser ditas e que infelizmente passam ao largo de congressos e seminários de RH. Obrigado pelo feedback. Vamos conversar!

  3. Muito interessante o assunto e a abordagem, fiquei muito curioso e me despertou a vontade de lê e conhecer mais sobre o assunto. Fico satisfeito de entrar num mundo que é desconhecido para mim, e descobrir através de um profissional gabaritado como Milton .

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