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DRUMMOND ETERNO

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drummondSites,blogs e redes sociais muitas vezes não respeitam autores, ou não lhes dando créditos por suas obras,ou atribuindo a eles autoria de textos que não escreveram, ou até deturpando seus escritos com partes falsas enxertadas.

Há algum tempo, via uma frase atribuída a Fernando Pessoa sendo usada por muita gente boa em palestras e  citações aqui e acolá. Intrigava-me a autoria atribuída ao notável poeta português, não pela qualidade da frase, inspirada e digna de um bom escritor,mas pelo estilo que, por meus parcos conhecimentos sobre Pessoa, estava bem distante dele.

Uma de suas versões era essa:

“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo; esquecer os nossos caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares.É o tempo da travessia… E,se não ousarmos fazê-la,teremos ficado para sempre à margem de nós mesmos.”

Intrigado,fui atrás do verdadeiro autor da frase e descobri, checando diversas informações e versões,que se tratava de Fernando Teixeira de Andrade, ex-professor de Português/Literatura do Cursinho Objetivo,nascido em Ribeirão Preto e morto em 2008. Conforme procurei saber,era um excelente professor,que encantou por muito tempo os alunos do Objetivo em Campinas e São Paulo.

Na realidade a frase foi extraída de um texto elaborado pelo professor.

De Carlos Drummond de Andrade os fakes proliferam na Internet. Procurava ,certa vez,um poema seu de que gosto muito e me surpreendi com algumas versões enxertadas por versos que nada tinham do poeta mineiro. A qualidade dos “enxertos” era baixíssima, não merecendo citá-los.

Fico com o poema real e verdadeiro do grande Drummond, sempre ETERNO.

ETERNO

E como ficou chato ser moderno.
Agora serei eterno.                                                                                                                                                  Eterno! Eterno!

O Padre Eterno,
a vida eterna,
o fogo eterno.

(Le silence éternel de ces espaces infinis m’effraie.)

— O que é eterno, Yayá Lindinha?
— Ingrato! é o amor que te tenho.

Eternalidade eternite eternaltivamente
eternuávamos
eternissíssimo
A cada instante se criam novas categorias do eterno.                                                                                    Eterna é a flor que se fana
se soube florir
é o menino recém-nascido
antes que lhe deem nome
e lhe comuniquem o sentimento do efêmero
é o gesto de enlaçar e beijar
na visita do amor às almas
eterno é tudo aquilo que vive uma fração de segundo
mas com tamanha intensidade que se petrifica e nenhuma força o resgata
é minha mãe em mim que a estou pensando
de tanto que a perdi de não pensá-la
é o que se pensa em nós se estamos loucos
é tudo que passou, porque passou
é tudo que não passa, pois não houve
eternas as palavras, eternos os pensamentos; e passageiras as obras.
Eterno, mas até quando? é esse marulho em nós de um mar profundo.
Naufragamos sem praia; e na solidão dos botos afundamos.
É tentação a vertigem; e também a pirueta dos ébrios.

Eternos! Eternos, miseravelmente.
O relógio no pulso é nosso confidente.

Mas eu não quero ser senão eterno.
Que os séculos apodreçam e não reste mais do que uma essência
ou nem isso.
E que eu desapareça mas fique este chão varrido onde passou uma sombra
e que não fique o chão nem fique a sombra
mas que a precisão urgente de ser eterno boie como uma esponja no caos
e entre oceanos de nada
gere um ritmo.

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Milton Pereira

Há mais de 30 anos como executivo de grandes empresas, hoje atua como Consultor em Liderança, Comunicação e Educação Corporativa.

2 comentários

  1. Querido Milton,

    Verdade! Casos típicos de fatos versus versões que “pegam”…

    Lembro-me de mais um, famoso, bem alinhado com sua intervenção. O poema “Instantes”, há uns 20 – 30 anos, era um dos mais vistos pelas “xerox”, Brasil afora, muito antes da internet… Segundo a lenda, era obra do grande argentino Jorge Luis Borges.

    (Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo foi um escritor, poeta, tradutor, crítico literário e ensaísta argentino de ascendência judaico-portuguesa. Wikipédia).

    As cópias das cópias das cópias das cópias, em papel e já praticamente ilegíveis, faziam muito sucesso…

    Hoje, a lenda está (quase…) pacificada.

    Uma versão sugere que o poema seria do americano Don Herold (1889 – 1966), humorista, escritor, ilustrador e cartunista, autor de diversos livros e colaborador em revistas americanas de grande circulação. Um de seus trabalhos mais famosos foi o poema “I’d pick more daisies”, que ao ser vertido ao espanhol recebera o título de ‘Instantes”. Segundo o site “falandoemliteratura.com”, a confusão foi iniciada pela escritora Elena Poniatowska que, num livro seu, atribuiu os “Instantes” a Borges.

    (Elena Poniatowska, nascida em 1932, escritora, ativista e jornalista mexicana de origem francesa, cuja obra literária tem alcançado importantes distinções, inclusive o Premio Cervantes 2013. Por Wikipédia).

    Outra versão, introduz nova personagem, Nadine Star, escritora também americana sobre a qual não localizei maiores referências. Nesta, ela teria “respondido” com esse poema quando indagada sobre o que faria com uma nova vida, de novo. Teria, então, os “85 anos” que tomam parte num dos versos finais da obra.

    Agora, um fato: a viúva de Borges, Maria Kodama, desmentiu sem deixar dúvidas que o poema não era de autoria de seu marido.

    Outro fato: a despeito das versões, da internet e das redes sociais, este “Instantes” sumariza com muita graça e simplicidade vários dilemas de nossa existência.

    Mais um: apesar de já um quasi-clichê, sigo atraído, emocionando-me e instigado a refletir sobre os dias que (ainda) me restam, sempre que me deparo com este texto.

    Aproveitem!

    Grande abraço, Milton, e parabéns pelo blog

    https://www.google.com.br/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=9&cad=rja&uact=8&ved=0ahUKEwjLusv8o93PAhUEg5AKHWO8BjIQuAIIWTAI&url=https%3A%2F%2Fwww.youtube.com%2Fwatch%3Fv%3DQFHw6elK0Ac&usg=AFQjCNH8nbU7yqNwDtvLBMNoEuN_eNS-9g&bvm=bv.135974163,d.Y2I

    Instantes (Nadine Stair)

    “Se eu pudesse novamente viver a minha vida,
    na próxima trataria de cometer mais erros.
    Não tentaria ser tão perfeito,
    relaxaria mais, seria mais tolo do que tenho sido.

    Na verdade, bem poucas coisas levaria a sério.
    Seria menos higiênico. Correria mais riscos,
    viajaria mais, contemplaria mais entardeceres,
    subiria mais montanhas, nadaria mais rios.
    Iria a mais lugares onde nunca fui,
    tomaria mais sorvetes e menos lentilha,
    teria mais problemas reais e menos problemas imaginários.

    Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata
    e profundamente cada minuto de sua vida;
    claro que tive momentos de alegria.
    Mas se eu pudesse voltar a viver trataria somente
    de ter bons momentos.

    Porque se não sabem, disso é feita a vida, só de momentos;
    não percam o agora.
    Eu era um daqueles que nunca ia
    a parte alguma sem um termômetro,
    uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas e,
    se voltasse a viver, viajaria mais leve.

    Se eu pudesse voltar a viver,
    começaria a andar descalço no começo da primavera
    e continuaria assim até o fim do outono.
    Daria mais voltas na minha rua,
    contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças,
    se tivesse outra vez uma vida pela frente.
    Mas, já viram, tenho 85 anos e estou morrendo”

  2. “Grande” Ricardo,
    Primeiramente,obrigado pelo prestígio de ter você como leitor do meu blog.Depois,mais agradecimentos pela contribuição valiosa ao tema apresentado.Sem dúvida,”Instantes” é um texto super-divulgado e quase sempre atribuído ao poeta argentino J.L.Borges.Muito bom você ter postado o poema e seus comentários frutos de pesquisa.Os raros leitores de meu blog acabam ganhando um “bônus”,que incentiva que eles também postem comentários ricos em conteúdos como os seus.
    Por coincidência,hoje(15/10/2016) na Folha de São Paulo,o articulista Dr Dráusio Varela se queixa de textos apócrifos atribuídos a ele.Menciona o prejuízo que isso pode causar, pois artigos deturpados sobre temas científicos podem levar pessoas a ,por exemplo,terem sérios danos à saúde.Ele faz referências a vários articulistas famosos, contumazmente com textos falsos atribuídos a eles na internet (Luiz Fernando Veríssimo,Caetano Veloso,Arnaldo Jabor,Jorge Luis Borges e Carlos Drummond, os citados pelo Dr Dráusio).Chama a isso de “LIXO da INTERNET”.

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