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DR PAULO GAUDENCIO,SAUDADES (1934-2017)

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Faleceu no dia 15 de junho o Dr Paulo Gaudencio, psiquiatra,terapeuta , consultor de empresas e autor de vários livros,dentre os quais cito “Minhas Razões,Tuas Razões”, “Men at Work”,”Jovem Urgente”,”De Professor a Educador:a experiência riopardense na Educação”, “A Morada da Moral”,”Mudar e Vencer”.

Homem de notável inteligência, psiquiatra renomado, Dr Paulo emprestou às empresas seus conhecimentos do comportamento humano , tornando-se consultor, com grande impacto sobre lideranças empresariais com trabalhos (dinâmicas de grupo,seminários,palestras) desenvolvidos  a partir dos anos 1980.

Como executivo e consultor de empresas convivi com ele nesse período,tendo a honra de privar de sua amizade. Destacar todas as suas virtudes pessoais e profissionais implicaria,sem força de expressão, desenvolver vasto trabalho biográfico que ,espero, ainda se faça por gente mais qualificada para tal empreitada. Neste breve artigo, em sua homenagem,gostaria de relembrar algumas passagens com o Dr Paulo das quais fui testemunha, fatos interessantes e algumas de suas ideias que marcaram sua trajetória pelas empresas.

Antes, é importante destacar suas qualidades pessoais.Homem de uma simplicidade absurda, tinha o dom raro nas pessoas sábias de saber ouvir. Atendia a todos com atenção, ouvia pacientemente até os que não tinham muito a dizer, esperava para intervir na conversa,mas ,quando falava,atraía a atenção de todos. Nunca demonstrava superioridade . Falava baixo nem tinha boa dicção.Não era showman em palestras,mas talvez tenha sido o mais brilhante palestrante que conheci, pela riqueza de conteúdo e ineditismo de suas teses em ambiente empresarial . O auditório silenciava para sorver melhor seus ensinamentos. Eu tentava anotar dados de suas apresentações (como sempre gostei de fazer em palestras),mas percebia que se o fizesse perderia detalhes importantes que viriam em sequencia lógica. Para não perder nada,passei,então, a apenas prestar atenção .

Paulo,em suas apresentações, era despojado de aparatos tecnológicos sofisticados. Quando o procurava para agendar alguma reunião ,ele dizia:”deixa eu consultar minha agenda eletrônica” e puxava do bolso um papel amassado que continha todos os seus compromissos. Aliás, outra característica pessoal dele era o humor sutil e requintado. Para ilustrar um conceito seu sobre excesso de culpa e responsabilidade, gostava de contar a piada do japonês que, após três dias do bombardeio de Hiroxima, perambulava pela rua com uma cordinha na mão,meio atordoado.Perguntaram a ele o que tinha acontecido e , assustado, respondeu: “Não sei,eu estava no banheiro,puxei a cordinha e estourou a cidade toda…”

Outra vez confidenciou-me uma irresponsabilidade sua.Teve uma ameaça de infarto,foi levado pelo filho, médico, até o Hospital e lá,antes de se submeter aos procedimentos de praxe,puxou um cigarro e,segundo me disse,deu a melhor tragada de sua vida.

Sobre o conceito de felicidade,ele vinha com a história de um passeio que,havia muito tempo,realizara  com a família em um sítio. Foram jogar futebol ,e o filho pequeno foi atuar de gandula. A bola ,em determinado instante,foi parar perto de um pé de jabuticaba,inteiramente carregado, que o menino nunca tinha visto.Ele pegou uma ,comeu…depois outra e foi comendo.As pessoas ao invés de reclamarem pela bola ficaram observando o garoto em um instante mágico.Ele estava concentrado: raciocínio e emoções estavam ali. Esse fato servia para que o Paulo, depois de uma reflexão profunda, concluísse:”Felicidade é chupar jabuticaba no pé”.

Uma vez lhe perguntei a diferença entre um neurótico e um psicótico. Veio a resposta adequada a um leigo como eu: ” O neurótico vai sozinho ao médico”.

Lá pelos anos 1990, tentei escrever com ele um livro.Uma ousadia minha que ele encarou numa boa.Eu entraria com os conhecimentos oriundos de minha atuação como calejado executivo de RH. Trataríamos do tema “mudança”, da organização e dos indivíduos, nessa nova “era do conhecimento”. O livro não saiu.Depois ele escreveu com a mesma temática “Mudar e Vencer”. Eu,no entanto, aproveitei ao máximo as reuniões que tive com ele. Chegou a me receber umas duas vezes em seu apartamento nos Jardins, me servindo sempre um bom vinho .Almocei com ele outras vezes e cheguei a acompanhá-lo , a seu convite, em um seminário em hotel de Atibaia para o presidente e executivos principais de uma grande empresa brasileira. Fiquei impressionado de ver a forma como conduziu as dinâmicas de grupo com essa turma de peso e o respeito e atenção com que era tratado pelos participantes.E nas viagens de ida e volta,em seu carro,lá ia eu ” devotado aprendiz”, sorvendo conhecimentos .

Também por causa do livro, debati muito com ele a questão da mudança em adultos: até que ponto programas de treinamento e desenvolvimento de executivos provocariam mudanças efetivas em seus comportamentos. Ele veio com mais uma daquelas:”só haverá mudança ou pelo tubarão ou pela paixão”. E ele me explicou que o “tubarão” representaria uma ameaça séria a um mergulhador que teria que mudar seus hábitos de nadar naquele lugar para não ser morto .Uma grande ameaça faz com que uma pessoa mude.Quanto ao outro fator de mudança ,extraio suas palavras do livro “Men at Work”:”O entusiamo da paixão muda atitudes,comportamentos…é o que marca a principal diferença entre emprego e profissão”. E em um capítulo especial desse livro tem-se uma explicação consistente sobre o poder da paixão.

Paulo era assim: inteligente,culto,simples,gentil,bem humorado,humanista por excelência.Uma das últimas vezes que o vi foi no casamento de meu filho há alguns anos.Ele e sua esposa Cristina me deram o prazer da presença. Ameacei umas visitas em seu Instituto e Clínica…Cheguei a apresentá-lo certa vez a um Editor de livros empresariais, meu amigo, para que ele trocasse de editora. De uns tempos para cá acompanhei a distância seus problemas de saúde que culminaram com sua morte, que participei a amigos no Linkedin. Minha comunicação gerou mais de 9 mil acessos e um sem número de mensagens e depoimentos de tantos profissionais que ,como eu, atestam as qualidades ímpares desse grande “ser humano”.

Vai fazer muita falta …deixa um legado importante no campo da psiquiatria, terapia,educação e consultoria de empresas.

 

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Milton Pereira

Há mais de 30 anos como executivo de grandes empresas, hoje atua como Consultor em Liderança, Comunicação e Educação Corporativa.

2 comentários

  1. Linda homenagem Milton, me emocionei. Também tive a oportunidade de conhecê-lo na época em que trabalhei no Banco ABN Real. Muito triste essa perda. Um forte abraço, Simone

  2. Caro Milton, parabenizo você pela iniciativa de escrever sobre o saudoso Dr. Paulo Gaudêncio, ele era esse maravilhoso ser humano que relatou, suas palestras tinham uma dose de genialidade e simplicidade, tive a sorte de participar de muitas delas pelo IBAP. Vou reler os livros dele com mais atenção ainda.

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