1

CRÔNICAS crônicas

Download PDF

O VELHO OMAR E O NETO

Corria a solto a reunião familiar na casa de Omar ,para comemorar seus 90 anos . A família numerosa se reuniu no casarão,trazendo todo o contingente de filhos,netos,bisnetos, noras e genros. Mais de 50 pessoas, se contarmos alguns amigos, empregados e bicões.

Omar, embora lúcido e de saúde boa, preferia ficar no seu canto, observando a galera ruidosa disposta a disputar quem conseguia chamar mais atenção falando alto e bebendo e comendo tudo que via pela frente. Todos os cantos da casa eram ocupados por grupelhos cujos integrantes se identificavam com os assuntos tratados ou com piadas e brincadeiras que provocavam risos frenéticos, premiando, pelo menos por alguns momentos, os candidatos a bufão de festa.Em alguns cantos os celulares eram a ferramenta preferida pelos que amam jogos ou conversas com quem está longe da vista.  Alegria por todos os lados só superada pela das crianças em correrias desvairadas por jardins e corredores da residência. Alguns choros e briguinhas interrompiam a conversa dos adultos para as protocolares assinaturas dos tratados de paz.

O chão era enfeitado por restos de salgadinhos e forminhas de papel mergulhadas em porções de suco e guaraná.Um legado para nenhuma empregada achar defeito, no dia seguinte!

Omar, no seu canto, nem parecia ser o homenageado, responsável por tantos gritos, risos, correria, bebedeira e comilança. Ele sabe que em algum momento entrará alguém com um bolo e pedirá um minuto de silêncio e de atenção para cantarem o famoso e protocolar “Parabéns a Você” . Vez por outra um familiar inicia conversa com o velho, mas, antes que ele ensaie uma das histórias de seus 90 anos, vê seu interlocutor invariavelmente ser puxado para uma rodinha para ouvir a última piada do dia.Uma de suas noras lhe faz aquela clássica pergunta :”E aí seu Omar, como é que chegou tão forte a essa idade? Conta o segredo pra nós!” Ele ,então, antes de proferir a terceira palavra, percebe que a nora,sem interesse na resposta, vira o rosto para pinçar uma empadinha que era servida por uma das empregadas. Em seguida, “educada”, pede licença a seu Omar para ver se consegue mais um salgadinho direto na cozinha.É certo que nem se lembra mais do que perguntou só por perguntar.

Omar continua observando calado o agito a seu redor.Não pode reclamar da gentileza das empregadas que não lhe cansam de oferecer salgadinhos e bebidas.

Eis que ,surpreendentemente,um de seus netos de 15 anos,Artur,puxa uma cadeira e se acomoda ao lado do avô. Artur demonstra interesse genuíno em saber histórias que ele conta. Diz-lhe que sempre adorou conversar com os mais velhos, que têm um mundo de casos para contar.Acha que isso o ajuda a entender a vida, mesmo considerando que o mundo muda em velocidade astronômica.E curte também as histórias da mocidade que seu Omar costuma contar. “As histórias do ser humano parecem não mudar na essência.O que muda são os cenários em que elas se desenrolam”, diz seu Omar ao neto,atento.

“Você, meu caro Artur, tem que aproveitar a sua vida que felizmente só está principiando. Minha conversa não deve interessar aos mais jovens.Falo mais do que passou porque tenho um estoque considerável de passado e sinto necessidade de desová-lo.Meu futuro é agora .Não posso falar de planos senão o que irei fazer hoje à noite ou amanhã.Você ,meu neto, quase não tem passado.O que passou nem lembra mais.O futuro para você é tão imenso que é melhor deixar para lá. Encher a cabeça com o mundo que virá, nessa sua idade não compensa.E nesse ponto de futuro nós até que empatamos: o seu também é o agora e o daqui a pouco. E faz bem que lhe seja assim.Haverá muito tempo para encher sua cabecinha de preocupações.”

Eles ficam conversando animados.Artur rechaça convite de um primo para uma disputa de videogame. Ele quer mesmo ouvir o avô, sorvendo experiências de vida e curtindo casos interessantes de quem já viveu tanto. De repente, um grito forte interrompe a conversa: ” Genteee! Vamos cantar o Parabéns!” Um bolo enfeitado com a “vela 90” é trazido até a mesa da sala onde brigadeiros, beijinhos e outras doçuras o esperavam. O aniversariante, então lembrado,é chamado para as solenidades de praxe.Luzes são apagadas,vela acesa e o canto é puxado pela nora mais aparecida. E lá se vai seu Omar cortar o bolo que,em seguida,é repartido e servido em dezenas de pratinhos.A criançada avança nos doces e,em poucos minutos, a mesa decorada fica em ruínas.

Seu Omar é abraçado por todos militarmente perfilados. Parece que depois há um toque de recolher.Um a um vão saindo os familiares devidamente refestelados.Artur pede um tempo a seus pais, enquanto o avô cochicha alguma coisa ao seu ouvido. Em ambos, um sorrizinho malicioso . Os pais de Artur querem saber o que é,mas o neto diz com altivez e mistério : “Coisas nossas!”.Prometendo uma nova conversa com o avô,beija-o carinhosamente  e se despede.

Seu Omar acomoda-se em sua poltrona de estimação e diz à empregada que lhe oferece outro pedaço do bolo: “Você não consegue avaliar quanto vale para mim um dedo de prosa desse neto tão querido.”

Download PDF

Milton Pereira

Há mais de 30 anos como executivo de grandes empresas, hoje atua como Consultor em Liderança, Comunicação e Educação Corporativa.

Um comentário

  1. Crônica linda. Lembrei-me muito de quanto meu filho ficava conversando com o avô. Pena que meu pai se foi aos 79 anos e meu filho tinha 17 anos.

Deixe seu comentário