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CRÔNICAS crônicas

ROSGOBÍFERO

Os irmãos Fonseca, Bartolomeu e Galdino,têm um prazer inusitado: discutir.Mas não é uma discussãozinha qualquer.Acontece com hora marcada,todos os Sábados às dez horas,durante reunião de amigos aposentados,em torno de uma mesa de dominó. O jogo é o pretexto para se armar o ringue a fim de que os dois se digladiem ante delírio da plateia.Nunca chegaram a vias de fato.Nunca foi necessária a intervenção dos circunstantes para separarem os litigantes.Agora também nunca faltou exaltação,dedo em riste e um festival de xingamentos e ofensas que vão de ironias finas a palavreado elaborado como se isso fizesse parte da “competição”.Querem demonstrar certa erudição sem cair em linguajar chulo, comum entre pessoas mal educadas e sem um certo grau de instrução. Terminada a contenda,quase sempre Bartolomeu dá carona a seu irmão para combinarem o almoço na casa de um deles.

Bartolomeu é dono de uma “casa de carnes”,mas se considera aposentado.O açougue fica a cargo de um de seus filhos.Aliás,chamá-lo de açougueiro é ofensa que ele não leva para casa.Quando provocado por um engraçadinho,diz ele: “sou empresário no ramo de proteínas animais”,querendo diferenciar seu estabelecimento dos outros existentes na cidade.Galdino foi escriturário concursado da Prefeitura.Aposentou-se aos 65 anos e vive com um salário modesto,mas suficiente para sua vida simples com a esposa.Seus  5 filhos ,crescidos,têm afazeres próprios não dependendo mais dele. A pacata cidade em que vivem de uns 12 mil habitantes ainda permite que todos se conheçam.Os jogos de Dominó são tradicionais nos finais de semana,em mesas do Boteco do Zé Pinguinha. As pelejas mais concorridas se dão justamente aos Sábados,às 10 horas,quando os contendores são os irmãos Fonseca.

Poucas regras regem as disputas.Não as de Dominó,que são conhecidas de todos,mas sim as das discussões de Bartolomeu e Galdino.Religião é bom evitar.Os irmãos frequentam a Igreja Católica e professam a mesma fé.Política ,de preferência a internacional que tem peso maior na avaliação dos amigos.Futebol, nem pensar.Ambos torcem para o mesmo time do Rio : Fluminense. E não se estimulam discutir futebol :”coisa banal e acessível a todos”.

Bartolomeu,”empresário”,com melhor sorte na vida,politicamente tende ao que se pode chamar hoje de “direita conservadora”. Galdino,sempre às voltas com a política local,servindo por muitos anos à prefeitura e por também não ser “endinheirado”,tende à esquerda ,sempre se mostrando revoltado com a distribuição de renda e injustiças sociais.As diferenças se observam no trajar e na aparência.Bartolomeu se apresenta bem vestido,com camisas impecavelmente passadas,calças jeans de marca e tênis de qualidade. Galdino está sempre desarrumado,barba por fazer,camisa suja, calça velha e sandálias. Dizem que gosta de fazer um certo tipo de revoltado e revolucionário. Uma das discussões memoráveis entre os irmãos foi sobre Estados Unidos e Rússia.Obviamente Bartolomeu defendia os Estados Unidos, exaltando seu “modelo de democracia , seu progresso pujante,país que recebe gente de todos os lugares em busca de trabalho e melhores condições de vida”.Galdino falou da União Soviética, exaltando “o socialismo, o poder do Estado que se responsabiliza pela educação e saúde de todos igualmente”.Falou das conquistas nos esportes e nas artes. A discussão foi ficando acalorada, e os argumentos apelativos entraram em campo.”Kennedy fez Kruschev botar o rabo embaixo das pernas e retirar todo arsenal bélico de Cuba- lembra-se disso? ” Galdino veio com outra: ” E quem é que pôs o primeiro foguete em órbita?-lembra-se disso?” ; “Mas e quem chegou primeiro na Lua?-lembra-se disso?”.”E quem é que botou o rabo embaixo das pernas no Vietnan? -lembra-se disso?” Galdino arremata com olhar superior: ” Fique sabendo: a Rússia não deve nada para os Estados Unidos”. Aí Bartolomeu apela de vez: ” Mas você me deve 2 quilos de suan faz um mês-lembra-se disso?.” Galdino,irritado,arranca do bolso umas notas de dez e cinco e atira no rival. Nesse dia não almoçaram juntos.

Não pensem que as discussões se dão sempre por questões ideológicas ou filosóficas. Coisas corriqueiras,até sem importância,preenchem muitas vezes as manhãs de sábado para delírio dos amigos.Um dia alguém chegou comendo uma frutinha vermelha,apanhada em árvore da praça.Bartolomeu logo indaga: “onde você comprou essas framboesas?” Pronto.Foi a deixa para Galdino na risada gozar o irmão: “isso é amora.A.M.O.R.A”. E aí o pau comeu.Óbvio que Bartolomeu não daria o braço a torcer mesmo que reconhecesse o engano. E era amora mesmo.Todos os presentes concordavam.Mas Bartolomeu não se deu por vencido: “Você já viu amora cheia de gominhos como essas?”. “Ora-contra-atacou Galdino- tanto amora quanto framboesa têm esses gominhos. Amora fica pretinha,framboesa é vermelhinha”. A plateia sabe que não pode interferir.É uma regra tácita da “competição”,respeitada até para não estragar a divertida contenda.Então,Bartolomeu apela (acho até que percebeu que estava errado): “No Brasil há um tipo de framboesa,como essas aí,que o povo ignorante(mostrando o irmão) insiste em chamar de amora.” E arremata:”é framboesa caipira”.Galdino cai na risada: “Framboesa só dá no frio e em temperaturas próximas de zero.Se não me engano,aqui deve estar uns trinta graus na sombra”.E aí, por pelo menos um minuto um dizia: “É amora” o outro “framboesa”,”amora”,”framboesa”…Até que a sorte ficou do lado de Bartolomeu: sua mulher interrompe a pugna e,por celular,chama o marido para o almoço.Salvo pelo gongo,Bartolomeu chama Galdino e saem juntos.Desta vez o almoço é na casa de Bartolomeu.Galdino,com ar de vitorioso,ainda da janela do carro, grita para os amigos:”AMORA!”

Empolgante mesmo foi o dia em que os dois iniciaram uma discussão sobre Ômega 3.Bartolomeu dizia que salmão era o peixe que tinha mais Ômega 3.Galdino entrou firme na disputa,puxando a brasa para a Sardinha.E aí os argumentos faltavam.Nem o padre que costumava dar um pitaco de vez em quando quis entrar na peleja.Os dois irmãos, então,apelaram para um festival de ofensas.Mas não podiam ser ofensinhas fáceis e rasteiras. Cada um queria se superar na “arte de ofender”.O salmão e a sardinha ficaram de lado e os dois partiram para as adjetivações:

-Você é um energúmeno!

-E você um apedeuta!

-Beócio!

-Capadócio

A coisa ficou feia, e o tom de voz foi aumentando,deixando a plateia preocupada como nunca.Bartolomeu veio com tudo:

-Sabe o que você é mesmo? Um detraquê!

-E você, a melhor versão de um toldado! – e aos berros arrematou,tentando a finalização: “Seu ANTROPOIDE!”

Bartolomeu engasgou, a “luta” parecia encerrada.Houve dez segundos de um silêncio total. Bartolomeu fungava e não conseguia sacar “arma” alguma.O padre, a essa altura, antes de “iniciar a contagem”, queria mais que o “gongo soasse”.Nenhum toque de celular.Quando todos queriam ver ,finalmente,as “três batidas de mão”,Bartolomeu bradou alto e bom som:

-Seu ROSGOBÍFERO!

Galdino não aguentou,jogou a toalha…

-Essa não:onde você arranjou isso?

E saíram juntos.O almoço naquele dia era na casa de Galdino.

(Qualquer semelhança com fatos reais não é mera coincidência.Essa crônica foi baseada em várias personagens que vão passando pela nossa vida,deixando  histórias que, ao contá-las e recontá-las,nos fazem rir ,gerando momentos para lembranças que alegram o nosso viver.Em especial,os saudosos Tios Faé e Didi,este último autor do retumbante neologismo “rosgobífero”, até hoje indecifrável.)

 

Milton Pereira

Há mais de 30 anos como executivo de grandes empresas, hoje atua como Consultor em Liderança, Comunicação e Educação Corporativa.

3 comentários

  1. Excelente, muito criativo, com movimento de estórias e palavras perfeitos. Nos remete a boas lembranças e serve de exemplo de que as pessoas queridas ficam cada vez mais vivas Parabéns, Milton!

  2. A plena arte de recontar a vida, reeditando lembranças e nos transportando a saudosas vivências em momentos únicos que criaram estórias em nossas histórias. Muito bom.

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