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CRÔNICAS crônicas

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O FEIO

De repente me olho no espelho como nunca havia olhado antes e me vejo feio. Com cinquenta anos é a primeira vez que inapelável e irremediavelmente me acho feio. Deve ser a idade que me trouxe a verdade nua e crua: estou feio e não há mais nada que se possa fazer.Adeus fase da plástica, quando tudo era possível,até melhorar meu visual. Convivia com a feiura quando tudo era bonito em minha volta.O viço da juventude me distraía com cenários lindos que ofuscavam minha feiura.Naqueles cenários o que importava minha cara?  Tudo para mim era possível tanto quanto para os meninos bonitos daqueles tempos. Até com as meninas? Sim,até com as meninas que me achavam o mais divertido da turma.Era o palhaço necessário compensando a feiura desmedida.

Em casa mamãe dizia que  eu era o filho que tinha o coração mais bonito.Mãe é danada para equilibrar as coisas! Tenho um irmão e uma irmã mais velhos.Eu era a rapa do tacho. E que rapa!Os dois esteticamente belos,formatados segundo a genética mais perfeita.Narizes afilados do papai,olhos esverdeados da mamãe,esbeltos,tudo bem distribuído ,no lugar certo. Eu…narigudo,magricela,olhos caídos,cabelos com falha de nascença preparados para a calvície de amanhã. Para mim,segundo sempre diziam os familiares,sobraram genes de um bisavô de origem árabe,destituído de qualquer sinal de beleza.Era cara de um e focinho do outro.Eta comparação perversa não fosse por um detalhe:puxei suas habilidades musicais!Desde cedo aprendi a tocar piano e o fazia tão bem que todo mundo admirava.Além disso era considerado um bom cantor,sempre pronto para alegrar as festas da família.Meu bisavô era um virtuose, maestro e músico de qualidade.

Na escola,desde os primeiros anos,ganhei apelido de “Feio”.Não se falava em bullying na época.Acabei me acostumando, nem ligava mais.Mamãe não gostava do apelido e repelia quem o utilizasse na frente dela.No futebol era “entra Feio, chuta Feio,passa Feio” e lá ia eu fazendo meus gols.Era querido porque jogava melhor que todos os meninos.Todos queriam o “Feio” no seu time.Quando entrei na Faculdade,evoluí: meu apelido era Zé Bonitinho,o brincalhão que alegrava os colegas nos botecos próximos à escola. Mas nos estudos não brincava.Era aluno exemplar. Formei-me médico ortopédico,sendo o primeiro da turma. Fiz residência médica no exterior e especializei-me em joelhos,sendo hoje médico de respeito e professor universitário muito querido pelos alunos.Interessante: ninguém por aqui me chama de “Feio” nem percebo algum apelido pejorativo.Sou Doutor,Professor,PhD José Osvaldo Sadi Esteves,ou ,como brinco,simplesmente J.O.S.É.Os apelidos ficaram no passado ,não mais repetidos mesmo quando me encontro com algum colega da escola.

Consegui casar com uma colega da faculdade,das mais bonitas e desejadas.Milagre?Acho que não.Ela gostou do meu jeito e se apaixonou mesmo, conforme sempre conta,quando me ouviu ao piano tocar e cantar “My Way”, à Frank Sinatra. Ela é pediatra, competente e dedicada. Temos dois filhos lindos. Lindos mesmo! Felizmente puxaram à mãe.Paramos nos dois.Agora fico pensando se tivéssemos um terceiro para “rapa do tacho”!?

Meu Deus! Por que só agora,de frente ao espelho,com cinquenta anos ,me acho definitivamente feio?A vida toda não faltaram indícios.E não eram insinuações.Iam direto ao ponto: “Feio”,”Zé Bonitinho”.Por que só agora me dou conta de que tinham razão?Por que os espelhos da infância e da juventude não foram sinceros como o de hoje?Acho que nem notava os espelhos quando me penteava ou me vestia.Vivia eufórico:havia sempre alguma coisa agradável e urgente para fazer.Os espelhos não tinham tempo de me dizer nada.Estava sempre apressado. Mas…e nos momentos tristes?Em cinquenta anos é certo que os tive.Será que as lágrimas conseguiram ofuscar minha feiura,turvando a visão frente aos espelhos, ou será que fugia deles para não me ver transtornado,mais feio ainda, ante vicissitudes da vida?

Agora estou pasmo…parado em frente a um espelho,me vendo diferente de quando me olhava antes. Enxergando o que não via. Justamente agora que praticamente minha feiura deixou de impressionar as pessoas ela me espanta como nunca.O flashback de minha vida,contudo, me leva a pensar que hoje saltam aos olhos das pessoas outros atributos muito mais significativos do que a beleza física.É como se a gente fosse se esculpindo de dentro para fora de acordo com a vida que se leva.Aí,então,poderemos ficar mais bonitos ou mais feios.

Fiquei feliz e deixei de lado o espelho delator.

 

 

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Milton Pereira

Há mais de 30 anos como executivo de grandes empresas, hoje atua como Consultor em Liderança, Comunicação e Educação Corporativa.

Um comentário

  1. Que crônica interessante e tão oportuna. Realmente com o tempo mudamos algumas percepções nossa e dos outros também.
    Abraços, Milton

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