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CRÔNICAS crônicas

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O AVÔ, A NETA E A REVELAÇÃO

Não fosse por um fato inesperado, o retorno de Norma a Capão da Capivara seria de muita comemoração. Afinal a moça voltava ao seio da família após 2 anos de sua partida para São Paulo,onde fora estudar e ganhar a vida.Norma de 23 anos,após atingir a maioridade,quis deixar o aconchego do lar e a pasmaceira de Capão,cidade que não oferecia nenhuma condição para seus estudos superiores nem para conseguir emprego que lhe pudesse garantir autonomia financeira e liberdade.E queria mesmo deixar a superproteção familiar que lhe oprimia muito.

Seu pai administrava uma fazenda que a herança de sua esposa lhe reservou.À boca pequena, na cidadezinha de 20 mil habitantes, diziam que ele , José Carlos, dera o maior golpe do baú ao casar-se com Teresa, filha única de abastado fazendeiro capoense. Nunca foi chegado a pegar no breu. A próspera fazenda , embora hoje garanta à família boa renda,fora, no tempo do sogro já falecido, muito mais produtiva,com plantações imensas de café ,milho e cana ,produção de leite de vacas leiteiras de estirpe e um rebanho de mais de mil cabeças de gado nelore. Hoje José Carlos tem as terras arrendadas e o gado,mais diminuto, criado a meia. Ele entra com a ração ,vacinas e gastos com veterinários e os meeiros entram com o trabalho pesado de ordenha ,manutenção dos equipamentos e áreas da fazenda além da negociação do gado e do leite.José Carlos prefere ficar na cidade bebericando nos bares com amigos, só indo à fazenda para colher os frutos de seu investimento. Aliás,nos últimos tempos nem isso ele faz com frequência.Delegou ao filho de 25 anos essas tarefas burocráticas.Gosta sim de ir ao Banco, sentar-se à frente do gerente e jogar conversa fora para desespero do bancário, que precisa tocar o serviço.Dizem também que é meio fanfarrão e mulherengo,chegado a uns pulinhos fora, em cidades da região.

Mas por que todo esse preâmbulo se a volta de Norma é o fato que agitou aquela família? Para tentar situar a história no contexto de uma família tradicional e das mais abastadas para os parâmetros daquela cidadezinha.E ainda falta dizer que Norma foi criada nos mais rigorosos cânones conservadores,numa família católica daquelas de interior,de ir à missa todos os domingos, confessar, comungar e cumprir os ritos da Igreja.Namoricos? Um ou outro que se saiba,mas todos com acompanhamento de perto pelos pais.

E onde entra o avô? “Seu” Horácio é pai de José Carlos.Viúvo,aposentado do Banco do Brasil,com seus 84 anos,mora na casa do filho,mais por insistência deste,já que preferiria ficar em sua casa confortável,hoje alugada a parentes.Acham que ele não pode ficar sozinho:pode precisar de alguma assistência já que certa vez teve um piripaque e foi socorrido às pressas e levado à Santa Casa da cidade.É um velhinho gozador,bon vivant, apreciador da boa cachaça local e jogador de truco*, dos mais conhecidos na cidade.Os parceiros de jogatina conhecem sua fama de blefador de categoria,requisito que o coloca entre os bons jogadores desse jogo de cartas.

Pois bem,Norma chega à cidade.Família reunida.”Seu” Horácio empunhando a pinguinha ,sempre bem humorado, vai logo abraçar a neta:” Finalmente a boa filha a casa torna.Que boas novas nos traz da capital,depois de um longo e tenebroso inverno?”.O irmão pergunta de bate-pronto:”e aí trouxe o que lhe pedi?”. A mãe Teresa,como quem sabe das coisas,não demonstra tanta alegria.Semblante de preocupação,abraça a filha com emoção,mas mantém um sorriso amarelo.José Carlos,que parece não saber de nada,dá um beijo na filha e vai logo dizendo:”Demorou para vir.Veio para ficar quanto tempo?Estávamos com saudades.Você só conversa com a mãe pelo celular!”. Norma ,sem muito rodeios,vai ao ponto:” Estou grávida!”

Segundos de um silêncio tumular que vai durando uma eternidade.Segundos em que só se observam fisionomias em processo rápido de decomposição.A mãe, cabisbaixa,não sabe por que porta sair; o pai vai se transformando em caras e bocas,procurando aquelas que sua condição de chefe de família lhe possa impor.O irmão acha um jeito de fugir como se tivesse muitos assuntos da fazenda a resolver.

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Antes que o pai,ruborizado, dissesse qualquer coisa, “Seu” Horácio,quebrando o silêncio,tenta a estratégia do humor,que sempre dá certo no jogo de truco: “Isso é uma boa nova,digna de comemoração.Qual o problema?Alô!!! Gente ,já entramos no século vinte e um! E ,depois, é a família que vai crescer com mais dois integrantes.Bebemoremos!”.E arremata,dirigindo-se à neta: “quando vai me apresentar esse novo neto de gosto tão refinado?”. A mãe corre para a cozinha porque esqueceu o café no fogo. José Carlos,de cara amarrada,quando ameaça falar, é interrompido pela filha que corajosamente declara: “É produção independente!”. “Seu” Horácio engole seco a caipirinha e ainda tenta uma nova cartada: ” Poxa,minha filha,eu entro de sete de copas e você vem de zap!?”

José Carlos tem uma reação inesperada: ” Assim é melhor.Não tenho que ficar cara a cara com algum imbecil e me poupo de quebrar a dita cuja do indivíduo”.Esse álibi lhe deu a senha para sair de cena ,com ares de que ainda não perdera o domínio da situação :”vou ao Banco resolver um problema urgente, refrescar minha cabeça e digerir essa revelação;depois conversaremos melhor”.Saída honrosa,para ele,que foi pego de surpresa sem poder coordenar melhor suas ideias.Nisso ele é bom:não explode facilmente e é hábil em fugir de polêmicas. Dona Teresa,lá da cozinha, não esconde a sensação de alívio.Parece que o pior já passou.

“Seu” Horácio ,só com a neta,ainda tenta uma pergunta: ” Essa produção independente é quando a fertilização é feita in vitro?”. “Não,vovô,foi fruto de relacionamentos com namorados”. Espantado com o plural,o avô arrisca uma gracinha:” mas o filho é só de um,ainda bem…” Dona Teresa habilmente interrompe o ‘inquérito’ e serve o cafezinho. Norma se senta, cruza as pernas e tira da bolsa um cigarro. O avô não esconde a indignação: “Ainda vai fumar? Essa não!”.

(*TRUCO: jogo de cartas,conhecido em alguns países e popularizado por aqui principalmente no interior de Minas e São Paulo,em que as cartas de maior valor(chamadas “manilhas”) são, pela ordem: o zap (quatro de paus),o sete de copas,a espadilha(az de espadas) e o sete de ouros, isso pelo sistema mineiro . As espertezas do jogo consistem em blefar(fingir que possui cartas superiores), fazer sinais imperceptíveis pelos adversários e combinados com o parceiro e fazer muito barulho para gritar “truco”, chamando o adversário a topar o jogo ou a “fugir” e perder os pontos)

 

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Milton Pereira

Há mais de 30 anos como executivo de grandes empresas, hoje atua como Consultor em Liderança, Comunicação e Educação Corporativa.

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