2

CRÔNICAS ANACRÔNICAS

Download PDF

cronicas-1 PAI, FILHO E ESPÍRITO DE PORCO

A falta de diálogo entre gerações transcende aspectos comportamentais ,ideológicos ou morais. Seu Epaminondas conseguiu espaço na “movimentada agenda” de seu neto Lucas,de 15 anos, para uma conversa descontraída.Coisa rara só alcançada nos minutos em que o neto deixava seu celular carregando numa tomada da casa.

Lucas abre a conversa questionando o nome do vô Epaminondas. Não conhece nenhum colega da escola com esse nome.

-Epaminondas? Irado!

-Claro – explica paciente o vovô- no meu tempo se usavam nomes gregos,cheios de significado.Epaminondas é o que está acima do melhor,insuperável.Foi um general grego que reestruturou a cidade de Tebas.

Sem muito interesse na história grega, Lucas insiste no estranhamento ao nome do avô:

-Tem um som feio, parece mesmo coisa antiga,tá ligado?

Seu Epaminondas diz que é questão de moda.

-Hoje você encontra na Escola um punhado de apóstolos e discípulos de Jesus. É um tal de Lucas, Mateus, Felipe, Tiago… João, Pedro e José, que ontem eram nomes comuns,hoje soam bem, são modernos. A geração de seu pai Marcelo, está cheia de Rodrigos, Robertos, Eduardos. Eram nomes fortes,bonitos,imperiais.Tudo questão de moda,de época.

-Tá, vô, mas Epaminondas…sinistro,já é demais… é de fato insuperável.

O avô ri e concorda até para conseguir mais um dedo de prosa, enquanto o netinho confere a carga do celular.

-Você sabe que é o perfeito papel carbono de seu pai?

Lucas fica intrigado:

-Papel carbono? Tipo o quê?

-Oh! desculpe , você não é mesmo do tempo do papel carbono!

Com paciência, Epaminondas explica para que servia o papel carbono e por que usou a comparação do neto com o pai:

-Vocês são parecidos  no temperamento e até fisicamente:cara de um focinho do outro!

-De boa:não sei como vocês viviam sem celular, E-mail, Face,Instagram…era tudo na base do carbono?

-Vamos virar o disco… você já tem ideia que curso superior vai querer fazer?

Lucas volta a ficar intrigado:

– Virar o disco? Não saquei…

 Epaminondas se dá conta de que usou mais uma expressão das antigas.E volta a explicar:

-É que, antigamente, ao invés dos CDs que vocês nem estão usando mais, havia os discos que tocavam em vitrolas,iguais àquela que enfeita nossa sala de música.Esses discos eram gravados nas duas faces…Tinha o Lado A e o Lado B…

-E aí vocês tinham que virar eles para trocar de música?Eram feitos também de carbono?

-Nada a ver. Havia ainda uma agulha…de diamante… fixada num braço…

-E diamante não tem carbono? – indaga Lucas, querendo demonstrar certo conhecimento.

-É …até que é ,mas não é a mesma coisa… Deixa pra lá e me responde o que perguntei.

-E o que é mesmo que você me perguntou?

Nesse instante,Marcelo,o pai de Lucas,entra na sala e se dirige, de gozação,ao seu Epaminondas:

-E aí ,pai , acabou a sessão nostalgia?

Epaminondas , demonstrando uma falsa contrariedade:

-Chegou para atrapalhar nossa conversa?

Lucas pega o celular carregado e,sem muita cerimônia,vai saindo como se tivesse algum compromisso sério:

-Vou dar um rolê por aí pra caçar Pokémon!Hashtag Fui!

Marcelo não perde a chance de tirar uma com o pai:

-Vacilou, mano?Perdeu o papo.

-E por que você não vai também caçar sapo com bodoque,mané?

-O quê?!

 

 

 

 

 

Download PDF

Milton Pereira

Há mais de 30 anos como executivo de grandes empresas, hoje atua como Consultor em Liderança, Comunicação e Educação Corporativa.

2 comentários

  1. Muito bom! Um taxista no Rio me disse outro dia: “os jovens estão se idiotizando cada vez mais. Não se ouve eles perguntarem, uns aos outros, que livro você está lendo? Vivem caçando Pokemons!!!”

Deixe seu comentário