0

CONSIDERAÇÕES SOBRE PODER,LIDERANÇA E CHEFIA

(Restrinjo-me ao poder na empresa.)

1-A expressão “empowerment”,bem difundida lá pelos anos 80/90 do século passado, entrou nas empresas mal traduzida. Tratavam-na por “delegação de poder” ,até se “oficializar” o neologismo “empoderamento”,hoje na moda,principalmente para traduzir a crescente participação da mulher na sociedade :”empoderamento feminino”.

Nunca aceitei a tradução adotada nas empresas,”delegação de poder”. Sempre preferi  “empoderamento” como “tomada de poder”,usando o verbo “empoderar-se” como reflexivo: eu me empodero ,tu te empoderas…e assim por diante.”Eu assumo o poder” consciente de que o meu “conhecimento” ,as minhas “competências” são capazes de influenciar pessoas.”Delegação de poder” é conceito antigo: alguém exerce o poder porque recebeu “outorga” de outrem.Só exerce enquanto lhe outorgam, mas não o possuem de fato. Sua “força” vem de uma “entidade” mais elevada.Como se alguém do andar de cima dissesse ao “delegado”: “vai lá e diz para todo mundo que amanhã todos terão que fazer horas-extras”. O “delegado” vai lá e “exerce o poder” em nome do outorgante.

“Empoderamento” é diferente: o “empoderado” chama a equipe e a convence da necessidade de fazer horas -extras. Seus argumentos e sua credibilidade com o time de liderados tornam a decisão mais fácil,mesmo que ,para isso, seja necessário recorrer ao bom diálogo.

2-Um LÍDER não necessariamente é CHEFE e vice-versa.

Se você é chefe, o poder lhe é outorgado para exercê-lo em nome do chefe que lho outorgou.

Se você é líder , o poder lhe é outorgado pelo reconhecimento de seus liderados.

3-Na empresa o chefe que não é líder se torna “representante”de um “poder maior”; exerce-o interpretando os “anseios” do seu “comandante”.Defende seu “posto” com unhas e dentes, sem avaliar com profundidade os efeitos de seus atos.Interessa a avaliação que recebe de “cima”.Torna-se “homem de confiança” ,confiança que espera ter do “alto”. “Subserve” seu chefe. Assume decisões sem necessariamente ter noção de que elas sejam úteis ou não para a empresa.”Se meu chefe quer assim,deve ser bom para a empresa”( uma nova versão do “manda quem pode ,obedece quem tem juízo”) .Na maioria dos casos “despersonaliza-se” para garantir o seu “sustento”e a “sustentação” de seu cargo. É “empregado” do chefe, não da empresa. Para todos os efeitos,acha que ganha para isso.

Os “subordinados” se tornam cumpridores de ordem,com reduzido espaço à criatividade e inovação. A “velha hierarquia” impera.

Quando há mudança na estrutura e esse chefe fica órfão do seu “comandante”, ele vê seu “poder” ameaçado. A quem (sub)servir agora? “Como minhas ações serão avaliadas?; “vou-me garantir no cargo?”;”vou ter que mudar meu jeito de atuar?”

4-Se o chefe é líder na acepção do termo, seu poder vem dos liderados,que o reconhecem capaz, confiável e com alto poder de influenciá-los.”Joga junto com o time” ,podendo obter resultados tão significativos para a empresa que se mantém no “cargo”. Muito provável que tenha um líder-chefe que o reconhece empoderado e que não mais pratica em seu”território” as “regras” da “velha hierarquia”. O espaço é propício para o desenvolvimento de novos talentos e do exercício de liderança mesmo dos que não têm cargo de chefia. Desenvolve-se em toda equipe a “mentalidade de liderança”.

Caracteriza-se esse “território” como espaço propício à geração de conhecimento e consequente desenvolvimento da inovação contínua.

5-Nas palavras de P.Drucker:” Líder é o que tem seguidores”. Para ter seguidores é necessário que o líder tenha poder. A fonte hoje mais qualificada de poder é o conhecimento.Qualquer pessoa pode ter conhecimento  (hoje o conhecimento é a fonte mais democrática para obtenção de poder) e , portanto,qualquer pessoa pode liderar, respeitadas áreas de atuação e seus respectivos  graus de complexidade . A complexidade é definida pelas exigências de mais ou menos conhecimento. Um pequeno setor da empresa,por exemplo,que cuida dos serviços de transporte poderá ter líderes cujos conhecimentos sejam compatíveis com a complexidade desse setor.

6-A “equação da liderança” se completa quando,além do conhecimento (responsável pela atribuição do poder), surge a motivação pelo empoderamento (“Surge uma oportunidade de exercer a liderança e eu quero me empoderar para exercê-la”) e uma certa “química” ,pela qual o líder ganha respeito e confiança dos liderados, que o seguem porque acreditam nele e lhe atribuem o que podemos chamar de “carisma”.

7-Uma empresa moderna, em permanente processo de transformação ,que se inova continuamente, tem que ser uma empresa de muita liderança e “quase nenhuma” chefia.

 

Milton Pereira

Há mais de 30 anos como executivo de grandes empresas, hoje atua como Consultor em Liderança, Comunicação e Educação Corporativa.

Deixe seu comentário