9

CAUSO CORPORATIVO

Download PDF

Lá pelos idos dos  anos 70,do século passado, quando era responsável pela Fundação Itauclube, lançamos um concurso cultural de contos. Queríamos estimular os bancários do Itaú para ações culturais e artísticas. Queríamos descobrir eventuais talentos, escondidos entre os balcões de agências bancárias e os arquivos dos incontáveis departamentos. Na verdade , não tínhamos grandes expectativas quanto ao material que iria chegar de todas as áreas do Brasil, mas todo esforço certamente era válido. E também recompensável com prêmios que iam para os cinco primeiros colocados.

Findo o prazo de entrega dos trabalhos, a comissão julgadora passou a analisar uns cinquenta contos, mesmo que alguns parecessem mais crônicas. Não devíamos mesmo ser tão rigorosos com esses escritores amadores.

Uma surpresa incrível aconteceu. Um conto era extraordinariamente superior a todos. Mais ainda: era um conto nivelável ao de um grande escritor. Como poderia acontecer isso? A primeira reação dos julgadores ( pode também ser a sua ,caro leitor!) era de que o conto poderia ter sido copiado de algum livro. “Afinal, um simples bancário não teria condições de produzir algo tão bonito”.

Antes de homologarmos as premiações e de conferir o primeiro lugar a esse magnífico trabalho, fomos investigar a possível fraude. Professores de literatura foram procurados para checarmos a autenticidade do conto. Resumindo: nenhum deles identificou outra autoria para a obra. Apenas apontaram estilos semelhantes a grandes contistas e não pouparam elogios ao concorrente.

Chegava,então, a hora de desvendar o nome do vencedor. Até então, pelo regulamento, os nomes dos autores ficavam em envelopes lacrados. Chegávamos,enfim, ao ” escritor bancário”, vencedor disparado em relação a todos os demais concorrentes. Descobrimos que era caixa de uma agência na Avenida Paulista. Fomos conhecê-lo. E aí uma outra surpresa. O jovem tinha se demitido do Banco. Segundo seu chefe, era um caixa muito distraído, que “parecia deslocado na função”. Houve uma falha no seu trabalho ( o que era chamado “diferença de caixa”). Inconformado em ter que arcar com o prejuízo,por pequeno que fosse,abandonou o cargo, sem qualquer rescisão formal. Era de uma cidadezinha no interior de Minas. Tentamos localizá-lo na pensão em que morava. Nada. O rapaz, talvez assustado com a “metrópole selvagem”,voltara para sua terrinha sem deixar qualquer rastro ou possível contato.

Ficamos sem poder premiá-lo a despeito do esforço feito para localizá-lo,numa época sem os recursos tecnológicos de hoje.

Até hoje mantenho cópia de seu belíssimo conto em meus guardados. Algumas lições podemos tirar desse “causo”. No campo profissional : como uma área de seleção coloca um rapaz com esse perfil na função de caixa de agência? como seu chefe não dá conta no dia a dia que ele era de “outro planeta”, podendo ser encaminhado para outras atividades,até mesmo dentro do Banco? Outra lição, talvez a mais relevante,é a de que em todas as grandes companhias há inúmeros talentos, muitas vezes desperdiçados em atividades incompatíveis com seus perfis e formações. Uma grande organização deve sim abrir espaços para que talentos em outros ramos de atividade emerjam.Deve estimular programas para o desenvolvimento artístico e cultural. Isso repercutirá positivamente no seu ambiente interno. Deve ter líderes capazes de encaminhar esses talentos para áreas compatíveis com suas”competências  extra-trabalho”ou fazer com que a empresa os apoie. Isso também faz parte do chamado “papel social da empresa” ou, se quiserem,da “qualidade de vida no trabalho”.

Não sei se há muitas empresas que pensam assim. Um dia ,certamente,elas se darão conta de que isso faz parte de um trabalho com mais significado e de que  a FELICIDADE tem que estar também no interior das organizações.

“OS CEGOS” , O CONTO

(Por ser longo, publicarei apenas o pequeno trecho inicial que dá ideia da qualidade e beleza da obra de um tal José Niuton ,nome inesquecível, , ex-caixa do Banco Itaú. O que será dele? Mais um talento que se perdeu?)

O sol tropeçou um pouco nos montes e cambaleou antes de dormir. Rosnou a velha mãe antes de apanhar a água com as mãos e levá-la à boca seca.

Tudo era velho e seco, seco e velho e mudo. E o velho seco chão de terra parecia a rapa enferrujada e preta das panelas.A vida, a velha e preta vida,secara. Secara na alma, nas bocas, nos olhos…como secara nos olhos!

A noite surgia assim naquele dia. Pretejou ainda mais a vida…mas uma canela-seca, velha e preta cantou!?(canto mais seco!). É o curió e a coruja, os pássaros! Os pequenos pássaros da noite ainda faziam a noite ser noite.

Está diferente, pensou a velha mãe. – Eles só pulavam de galho em galho e hoje cantam…Está diferente!

Dentro da casa, a velha casa ensebada e preta de fumaça, os dois velhos filhos também notaram o canto da passarada noturna(canto mais mórbido!). Havia mais noite dentro deles que a própria escuridão lá fora. Havia mais secura e ferrugem dentro deles que a própria vida lá fora. A própria velha sabedoria murchara como as próprias bocas que se fecharam. Havia mais harmonia em uma velha e tensa canção entre eles e a vida. Cantavam mudamente num mesmo compasso modorrento, mas gritante!Os gritos calados dentro da própria vida, deles e do lá-fora.

(Gostaram? Quem sabe ainda publique a obra inteira! Por ora fica o gostinho de “quero mais”)

Download PDF

Milton Pereira

Há mais de 30 anos como executivo de grandes empresas, hoje atua como Consultor em Liderança, Comunicação e Educação Corporativa.

9 comentários

  1. Bom dia, MIlton:

    Primeiro, gostei muito do seu artigo e de suas considerações. Segundo, uma pequena discordância, já até meio implícita em suas próprias palavras: talentos não se perdem, apenas não são encontrados. Terceiro: pelos parágrafos que v. transcreveu, dá para se ter noção do talento do escritor. Não há sobrenome? Achei uma rua poeta José Niuton Alves, em Varginha, MG. Com mais alguns dados do autor, quem sabe se não se pode localizá-lo? Sobre talentos, tenho um amigo, agora distante (pois se mudou para o interior), que fazia parte de um grupo de contistas que eu frequentava, cujos contos sempre me espantaram, pela construção de uma linguagem absolutamente nova e criativa. “Apenas um cirurgião dentista” era/é esse amigo. Seu nome: Djair Lázaro Pinheiro de Almeida. Dele me restaram dois ou três contos, que publiquei no Trapiche dos Outros, pois não mais tivemos contato. Uma pena. Mais um talento por aí, que não foi encontrado. Um grande abraço.

    • Isaías é um excelente professor de Literatura e Gramática , um ótimo escritor e teatrólogo.Um amigo que agora nos deixa esse valioso comentário. Para quem gosta de Literatura, aí vai o nome de seu Blog , Trapiche dos Outros, onde encontrarão ótimos textos e inteligentes comentários.

  2. Oi Milton. Chega a ser engraçada sua frase “século passado”. Afinal século passado soa muito longe.
    Lembro me desse caso do conto, embora não o tivesse lido.
    A despeito do concurso de contos e seu vencedor não localizado, tantas outras coisas boas foram realizadas pela fundação sob sua saudosa e futurista gestão que propiciou a evolução de carreiras de pessoas.
    Àquela época eu me perguntava: “Quantas empresas no mundo valorizam o humano trabalhador dessa maneira?”
    Como esquecer as grandes olimpíadas, concursos de miss, de voz, festivais de MPB. E o Coral Itaú? E o Teatro? Ah o teatro…
    Nossas peças iam parar nas colunas dos grandes críticos teatrais dos grandes jornais de São Paulo.
    Do concurso de voz, só para dar um exemplo, saiu o Arnaldo, hoje, puxador de grandes escolas de samba. Tivemos miss Itaú que se tornou miss São Paulo.
    No século passado você estava à frente de seu tempo. Sorte nossa, seus comandados, termos estado naquela nave…

    Grande abraço
    Chico Rossi

  3. Olá Milton, gostei muito do case. Sou Coach e trabalhei muitos anos na área de RH. Vejo que o tema da pessoa certa no lugar certo ainda é um desafio nos dias de hoje. Costumo trabalhar muito a questão do autoconhecimento nas pessoas. Se me permite vou divulgar na minha página de Coach no facebook ok? Obrigada

  4. Gostei muito da história. Fiquei muito curioso para ler na integra e conhecer o paradeiro do contador de historia.

  5. Cheguei até aqui só agora, anos depois, quando encontrei esse site ao procurar notícias do meu amigo desaparecido em 1992, o próprio autor poeta José Niuton Alves. Nesse longínquo ano de 1992 eu iniciava a minha primeira faculdade no curso de Comunicação Social na Universidade de Taubaté. O Zé Niuton, como o chamávamos, se tornou um grande amigo boêmio em poucos dias. Eu com 21 anos de idade e ele muito mais velho. Nunca lhe perguntei a idade, mas parecia ter mais de 40 anos. Estudavamos à noite e terminavamos todas as noites, após as aulas, no boteco da esquina da faculdade, bebendo muito, conversando muito e recitando poemas deslumbrantes que ele criava com uma naturalidade fenomenal. Um mês de amizade e ele trouxe uma mochila moribunda lotada de livros. Eram a primeira edição da sua obra intitulada “Pelo Perdão da Má Palavra”, escrita em 1984. Ele sacou um exemplar e me deu de presente. Disse que aquela mochila cheia de livros era a única coisa que trouxera de Varginha, MG, a sua cidade natal. Eram os exemplares que haviam sobrado e ele queria a minha ajuda para vendê-los. Havia uns 30 exemplares da sua obra. Disse que foi produção independente, que havia feito 500 exemplares pagos do próprio bolso. Vendia em rodoviárias de MG e SP, por onde havia andado muito. Mas em SP, capital, conheceu um sujeito que gostou muito das suas poesias e lhe prometeu abrir as portas do sucesso à ele. Disse que representava uma grande editora, mas era só um golpista. Fez ele assinar papéis e documentos, prometendo uma edição nacional da sua obra. Dos 500 exemplares havia ainda 350 com ele. O sujeito levou 300 exemplares com ele e retornou uns dias depois com mais 500 exemplares novinhos. Eram cópias exatas, sem o selo da tal editora famosa. O sujeito disse que a editora não fazia baixas tiragens. Que primeiro devia “sentir o mercado” para depois investir em uma nova edição com, no mínimo, 10 mil exemplares. Zé Niuton ficou com os 50 exemplares e o sujeito levou novamente os 300 originais junto com as 500 cópias extras que havia feito. Nunca mais voltou. Mas os livros do meu amigo se espalharam pelo Brasil e hoje é encontrado em sebos de vários locais. Não houve uma segunda edição. Daqueles 30 exemplares na mochila vendemos 20. O montante levantado se transformou, rapidamente, em doses de cachaça e cervejas. Uma semana depois, o Zé Niuton não apareceu na faculdade. Foram 4 dias sem a sua presença até recebermos a notícia de que ele havia sofrido um atropelamento e estava internado no hospital. Passou-se outra semana e, enfim, ele retornou na hora do intervalo das aulas. Fui o primeiro a vê-lo. Ele não contou muito sobre o ocorrido, se limitando a dizer que a culpa era da cachaça. Estava com hematomas visíveis nos braços e no rosto. O nariz estava inchado bem próximo aos olhos. Fomos ao velho bar da esquina e tomamos umas doses. Ele estava quieto demais, dizendo estar com saudades de Varginha. Não entrou para a aula. Foi embora dizendo que talvez fosse tirar uns dias para se recuperar melhor. Aquele foi o último instante que o vi. Nunca mais retornou e eu só fiquei sabendo que havia abandonado a faculdade devido a complicações no pós cirúrgico. Dois anos depois, numa festa da faculdade, encontrei um cara que fazia Jornalismo e que entrará naquele ano transferido de outra faculdade. Ele veio até mim e me disse que queria confirmar se eu era mesmo quem ele procurava. Disse que era amigo do Zé Niuton e que ele havia me mandado um abraço. Disse que o Zé estava em MG escrevendo outro livro. Estava ainda muito mal devido ao acidente, com vários problemas de saúde. Por fim confessou que achava que ele não iria durar muito, infelizmente. Estranhamente, esse cara também sumiu. Depois daquela festa largou a faculdade. Anos depois eu descubro que em Varginha a Câmara Municipal deu o nome de uma rua ao saudoso Zé Niuton. Ele faleceu, provavelmente devido às complicações de saúde decorrentes daquele fatídico acidente.

    • Andei meio distante do Blog.Hoje leio seu relato sobre o Zé Niuton,que não tive o prazer de conhecer.Gostaria de confirmar se se trata mesmo do José Niuton que chegou a trabalhar de caixa no Banco Itaú e que ,na ocasião, participara do Concurso Literário promovido pela Fundação Itauclube,na época por mim gerenciada.Infelizmente não pudemos dar-lhe o prêmio do Concurso,pois ele havia deixado o Banco sem indicar endereço (parece que morava em alguma república ou pensão).Quis muito na época conhecê-lo,pois seu conto encantou a todos os jurados do concurso.Como meu blog, quis publicar seu conto ( OS CEGOS) pela beleza e pela inusitada história.Foi bom receber seu relato,embora lamento muito que ele tenha partido.Sem dúvida ,um escritor nato e de grande futuro.

Deixe seu comentário