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ARROGÂNCIA , o pecado mais capital

LEAD

Tinha a intenção de nomear “7 PECADOS CAPITAIS “ das organizações, atribuindo a eles os impactos negativos sobre a gestão. Não seria difícil achar 7 pecados. Poderia desdobrá-los em dezenas de “pecados”, uns imbricados em outros.Por questões cabalísticas ou bíblicas , o número “7” é o mais indicado porquanto o assunto em pauta seja “pecado”.

Acontece que, ao nomear o primeiro, a “ARROGÂNCIA”, encontrei material suficiente para escrever vários artigos o que me fez dispensar os outros “pecados organizacionais”. A “ARROGÂNCIA” é tão “arrogante” que,em termos de “pecado”, se basta.

O QUE DIZEM OS DICIONÁRIOS

ARROGÂNCIA = altivez,soberba,orgulho,insolência,atrevimento . Prima irmã da prepotência e da presunção.Parente próxima do egocentrismo.

Se puxarmos toda sua “árvore genealógica” ou “etimológica”, vamos nos deparar com ancestrais poderosos, despóticos, tiranos,ou até pedantes,cheios de si, conhecidos na França por “remplis de soi-mêmes” e na Espanha por “se lo cree”.

O certo é que a ARROGÂNCIA traz em suas raízes a petulância e insolência com que as pessoas se julgam superiores e, com isso,deixam de ouvir, deixam de enxergar o que não querem ver e se fecham em si mesmas, ensimesmadas, narcisadas,arredias a qualquer tentativa de comparação com outrem.

QUANDO ISSO SE TORNA TRAÇO CULTURAL NAS ORGANIZAÇÕES

A ARROGÂNCIA na cultura organizacional faz um estrago enorme. Ela é , em geral,originária,dos líderes fundadores, fortalecendo-se principalmente quando a empresa é bem sucedida e está entre as líderes de mercado. Mas ela pode também manifestar-se sorrateiramente em áreas localizadas de uma organização, quando a competição interna é praticada e até estimulada (como estratégia de gestão).

Em extremo, ela inibe a INOVAÇÃO, pois a empresa se julga tão superior que não precisa mudar. Aprender com quem? Não há ninguém que possa ensinar a ela qualquer coisa. Prospectar o mercado, ver o que a concorrência está fazendo , para quê ? Considera que tem os melhores sistemas, a melhor tecnologia, os melhores produtos…

Essa ARROGÂNCIA organizacional direciona os funcionários a absorvê-la em seu dia a dia. Aliás, até o roteiro de contratação privilegia aqueles de perfil mais “altaneiro”, “pedantes”,”atrevidos” (tudo isso  tido como qualidades indispensáveis no processo seletivo). “Nossa empresa não quer gente muito certinha”, é o que diz a recrutadora, colocando a palavra “certinha” de forma pejorativa contrapondo a ela “ousadia” que, no caso, não deixa de ser um eufemismo para “ARROGÂNCIA”.

VALOR QUE NÃO VALE 

A ARROGÂNCIA pode levantar tão alto o topete do pessoal que não é improvável que o cliente da empresa passe a ser considerado um imbecil que não sabe o que quer. “Como?Reclamar do quê, se a nossa empresa tem tudo?”

“Contratar consultores externos para quê? Eles não têm o que nos ensinar”. “Um palestrante para atuar aqui dentro vai ter que ser brifado; temos que dizer o que ele vai falar”. E vai por aí afora.

Com o tempo ARROGÂNCIA como um “falso valor organizacional” vai anulando outros valores genuínos que a empresa tenta estimular. Ela não sabe, por exemplo, como melhorar o atendimento aos clientes, até porque ninguém da empresa acha que o atendimento é ruim. Ela não sabe como estimular o trabalho em equipe, porque cada área se acha melhor que a outra.Ela não sabe por que as pessoas estão desmotivadas. Há em cada uma a sensação crescente de que não são valorizadas na medida do “ENORME” e “FANTÁSTICO” resultado que entregam.Afinal,graças ao perfil de contratação, entram na empresa essas “cobras” que, depois de criadas, usam sua ARROGÂNCIA contra a própria empresa.

ARROGÂNCIA é um “anti-valor” , uma ameaça interna (que age de dentro para fora), que ,aos poucos, vai corroendo os valores positivos da cultura organizacional .

Milton Pereira

Há mais de 30 anos como executivo de grandes empresas, hoje atua como Consultor em Liderança, Comunicação e Educação Corporativa.

4 comentários

  1. Caro Milton,
    Gostei. Penso que a arrogância é especialmente presente nas empresas como as do Brasil, um país de sociedade patriarcal, patriomonialista e desigual. Em culturas mais maduras e equânimes, como as dos países escandinavos, essa atitude é menos frequente, creio.
    Abraços,
    Marco A. Oliveira

  2. Caro Milton,

    Muito bom seu artigo, e de cunho original, posso dizer que pelas empresas que trabalhei e empresas que conheci vivenciei muito a arrogância por alguns gestores ou quem que fosse como algum cargo dentro da empresa, vale lembrar também, que conheci muitas pessoas extraordinárias e humildes.

    Sucesso

    Antony

  3. grande Milton, vem a calhar a sua reflexão…. é interessante observar como as empresas e seus líderes arrogantes estão sendo afetados pela “maré alta” da realidade, a contração do mercado e das margens de lucro, etc…. e como “aprender” a ser humilde nestes tempos bicudos, depois de tanto tempo com o cachimbo da arrogância na boca ??

  4. Olá Milton, muito oportuno seu artigo. O mercado de trabalho revela a falta de propósito das organizações. O foco no resultado de curto prazo leva arrogância, também. O que será, o que será ? dos profissionais do futuro aqueles que ainda estão em formação, passando por experiências tão negativas. Se não tiver uma formação familiar forte será, provavelmente, influenciado por esse tipo de empresa.

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