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A CASA QUE VIAJAVA NO TEMPO

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Rubem Braga(Em tempos idos, quando dava aulas em Cursinho,uma crônica de RUBEM BRAGA, extraída de alguma antologia,serviu-me para fazer “interpretação de texto” junto com os alunos.Essa crônica ficou entre meus alfarrábios e hoje a releio em papel de apostila amarelecido pelo tempo. Já a procurei em livros do autor e não a encontrei. Resolvi postá-la, porque belíssima e porque faz muito sentido a quem, nostalgicamente, revisita a casa de seus antepassados ou amigos de longa data. Só para lembrar,RUBEM BRAGA é considerado um dos maiores cronistas do Brasil)

Volto,como antigamente,a esta casa amiga,na noite de Domingo.Recuso,com o mesmo sorriso,a batida que o dono da casa me oferece e tomo a mesma cachacinha de sempre. O dono é o mesmo, a cachaça é a mesma,a casa,eu…E tantas vezes vim aqui que não tomo consciência das coisas que mudaram.

Sento-me,por acaso,ao lado de uma jovem senhora,amiga da família, e a conversa é tranquila e morna.Mas de repente, a propósito de alguma coisa,ela diz que se lembra de mim há muito tempo. “Você vinha às vezes jantar,sempre assim de paletó e sem gravata.Sentava calado,com a cara meio triste, um ar sério.Eu me lembro muito bem. Eu tinha seis anos…”

Seis anos! Certamente não me lembro dessa menina de seis anos; a casa sempre estava cheia de meninas e mocinhas. Há pessoas que eu conheço de muitos domingos através de muitos anos e das quais nem sequer sei o nome.Pessoas que para mim fazem parte desta casa e desses domingos, visitando esta casa.A primeira recordação que tenho dessa jovem é de uma adolescente que às vezes dançava no jardim.Era certamente linda;mas não creio que tivéssemos trocado através dos anos mais de duas ou três frases ocasionais.Sempre tive a vaga impressão de que ,por algum motivo imponderável,ela não simpatizava comigo. Só agora me dou conta de que a vi crescer, teria sido uma distraída testemunha de seus flertes, de seu namoro;lembro-me de seu noivado; lembro-me de quando se casou, sei que hoje,ainda tão moça, tem dois filhos- e a maternidade veio definir melhor sua radiosa beleza juvenil.

Inutilmente procuro reconstituir a menina de seis anos que me olhava na mesa e me achava triste.E não faço a menor ideia do que ela soube ou viu a meu respeito durante esses inumeráveis domingos.Certamente fui sempre ,para ela,uma figura contente, mas vaga- um senhor feio e quieto,que ela se acostumou a ver distraidamente de vez em quando- às vezes com um ano ou mais de intervalo, que viaja e reaparece com a mesma cara e o mesmo jeito. Tomo consciência de que é a primeira vez que conversamos os dois, ao fim de tantos anos de  vagos “boa-noite” e “como vai?” , mas nossa conversa tranquila e trivial me emociona de repente quando ela diz: “Eu tinha seis anos…”

Penso em tudo que vivi nesses anos- tanta coisa tão intensa que veio e foi- penso na casa , no dono da casa, na família,na gente que passou por aqui. A casa não é mais a mesma, a casa não é mais a casa…é um grande navio que vai singrando o tempo, que vai embarcando e desembarcando gente no porto de cada Domingo: dentro em pouco,outra menina de seis anos, filha dessa menina,estará sentada na mesma sala,sob a mesma lâmpada,e com seus dois olhinhos pretos verá o mesmo senhor calado, de cara triste – o mesmo senhor que numa noite de Domingo,sem o saber, se despedirá para sempre e irá para o remoto país onde encontrará outras sombras queridas ou indiferentes que viveram também suas noites de Domingo e que não voltaram mais.

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Milton Pereira

Há mais de 30 anos como executivo de grandes empresas, hoje atua como Consultor em Liderança, Comunicação e Educação Corporativa.

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